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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

PLATÔNICO BUROCRÁTICO =====

  "(...)Sua carne estava sempre em brasa, e seu calor
   era contagioso. A mais fria das peles se aqueceria ao seu contato..."
                                                                        (Anaïs Nin)


Requero para as boas intenções afins,

do teu corpo lavrar posse, minha musa amada.
Enquanto caminhas satisfeita pelo quarto,
só vestida com a fumaça do cigarro,
a esmagar meu coração aos teus pés...

Sem veleidades considerar o que fazes,
que o juízo alheio julga errado
a induzir-me igualmente em flagrante delito.
Contudo, tomo isto como um pecado abençoado
ao invés de lamentar por sequer tê-la tentado.
E uma única vez apenas infringir essa proximidade,
dizer ao teu ouvido maviosamente:
"Tua vontade é o que tu queres.
Nada mais pode sê-la proibido!
Não temas minha petição."

Dar vazão à minha virtual obsessão predileta.
Te dar banho afagando-a de um modo indiscreto.
No entanto, confessas descuidada
suas paixões numa conversa.
Posa e se arruma
pro meu exercício literário.
Às vezes me repara
com seu olhar distraído,
conjeturas, beberica no copo
entre outras coisas etcetera...

Eu, platônico, outrossim, burocrático
te espreito na promessa de tê-la.
Somente por uns instantes
volúvel como só tu sabes
encobrir tuas falhas nos lençóis.
Que a outrem fá-los perdoar
pela saciedade dos teus beijos sumarentos.
Quanto a mim, basta o rumorejar da tua saliva
enquanto ri. Todavia, também sinto sede.
Dai-me de beber com um beijo.

Assim eu te beberia a desfrutar
a embriaguez do teu cálice,
brindando na presença de todos.
Mesmo que testemunhos maledicentes
atestem a verdade que dou fé.
Ele é casado! - Tamanho escândalo
por causa de um beijo,
olhos fechados quando me convém
vislumbrar o oásis deste teu regaço.
Pois estou cego, dá-me a esperança desesperada
de constatar meu desengano.
Que mal há em ver aquilo
que não existindo
possa-se sonhar o engano?

O que Vi? vi antes, não melhor nas outras.
Mas este encantamento que lhe sobra,
do qual me alimenta os restos.
Um tal fogo que não queima, porém se incendeia.
Esta ferida dilacerada, "muda e sempre".

Não vejo como impedir o indulto
desse sentimento neste meu coração perjuro.
Quem culpar se no amor os culpados
são apenas vítimas consentidas?
Embora seja réu declarado
conivente da mentira.
Pretendo elucubrar meu sentimento sórdido
te amar bendizendo casta e pura.
Condenado castigo,
admitir mea ingênua culpa.

                                 Vicente de Carvalho, Outono de 1996.
   

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O AMOR VENCEU... ========

Quem disse que o amor se deteriora ante as dificuldades cotidianas. Não para aquele casal de desvalidos. Apaixonados sob um pórtico neoclássico em ruínas, então contrariavam muitos litígios matrimoniais.
Alimentando seus modestos sonhos de vida doméstica. Viver para ser sua imperdível jóia rara. Que o sol e sal não fossem somente a paga do seu salário.
- Je vie de bec, mon amour. Ironizava tendo aprendido dum programa humorístico da televisão.
Se davam ao luxo de contemplar uma noite de lua. Acreditando que os astros responsáveis por os unirem (ele pisciano, ela de Aquário) mudassem aquela sorte monetária.
Juntos, protegidos da chuva que lava caudalosamente as imundícies da sarjeta. Revolver o lixo à cata das sobras deliciosas. Um final feliz de novela pela tv da padaria da esquina. Ou o fundo musical num alto-falante do carro de propaganda gritando em pleno calçadão, no dia dos namorados:
" Baby, sem você não dá!" - Trilha sonora acidental daquele idílio público. Cenário dum beijo inesquecível  com sabor do seu anterior gole de pinga, embebido no gosto acre da perdida escovação dentária dela.
Pouco importa se as flores são achadas também murchas, num agrado que faz, sendo o amor quieto e suarento debaixo do abrigo de papelão ao rés da fachada duma agência bancária.
E se lhes consomem as dúvidas. Caso não a quisesse feito um prato de comida. Entendesse que não fosse o homem da casa, nem tenha conquistado o mundo... Era crer o amor venceria tudo.
Convicto da razão que só o coração conhece. Bem contrário a si é mesmo o amor.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O PASSADO TE CONDENA =====

Retornado tanto tempo depois a sua cidade natal parecia um estranho. Havia também certa estranheza da vivida paisagem urbana. Prédios construídos sobre os antigos chalés de madeira. O coreto dos namoricos, o chafariz esguichante, o relógio digital do calçadão, extraviados décadas atrás. Embora o número de habitantes aumentara, se espalhasse nos rincões do lugar, pouco mudara de fato.
As mesmas figuras citadinas, seus descendentes vagueiam nas portas dos bares, malucos, alcoólicos, pedintes pelas  mesas da calçada. E há noites lunares em que eles proliferam. Assim, um mendigo masturba-se ao olhar as periguetes que bebem incomodadas, energéticos e doces refrigerantes.. As portas dum Citroen prata escancaradas, vazando tunado hits do funk... Alguém expulsa o inconveniente, sem no entanto o sujeito largar os bagos entre as calças. Nisso o dono do bar oferece-lhe um melão e emenda a típica dialética do balcão.
- Fura esta porra, recheia, entendeu?... E depois come! Praga, some daqui!! - Abraçou desajeitado o fruto apodrecido. Sem dúvida tratava-se de um velho conhecido.
...Do nada surge aquela pessoa enigmática. Rompe a intimidade, o aprisiona num encontro de olhares curiosos. Se põe a sentar.
- E aí, lembra de mim?
- Sei não...
- Tá vendo, o cara não se lembra mais de mim! - Critica amigavelmente. Era um antigo vizinho da infância, num dos bairros em que morou à época. Tenta trazer pela memória. Contudo, dissesse o nome não se recordava... Enveredara na senda do crime. Tráfico. Morte de policiais. Acerto de contas com iguais bandidos. Puxou anos de cadeia. Gostava muito, muitíssimo de mulher. Por isso preza a liberdade. Tem inclusive uma estátua no "criado-mudo".
- Cadeia é você preso numa cela cheia de cão danado. Na secura... Querendo morder o rabo do outro.
Risca-lhe seu pensamento as brincadeiras de moleque repletas de traquinagens, pálida lembrança de inocentes perversidades da turma.
- Tem coisas que a gente não se lembra...
- ...Já pensou se você tivesse me devendo? - O tal ri entre uma nuvem de fumaça de cigarro Free Slims vermelho.
Tem problemas de insônia. Fuma em demasia. A bebida que parece ser sem exagero, serve como paliativo. Apenas um conhaque Domecq e danou a falar com a sobriedade dos embriagados. Do quanto a vida podia ser injusta. Difícil pra quem tem sentimentos. Laços de amizade. O valor de um proceder. E mais recordações que não consegue atinar.
- Você tem vindo sempre aqui...
O outro expressa surpresa no olhar.
- Trabalho na sala de segurança, lá em cima. - Aponta o 2º andar do prédio com vista para a calçada. Faço segurança à paisana. tenho visto pelo monitor do circuito de câmeras.
A conversa perdera o tom agradável.
- Nem acreditei quando reconheci.
- Não sou bom de memória.
Você era um sacana!...
- Faz tanto tempo.
- Vai ver eu sou um cara, que as pessoas pouco reparam... A não ser para tirar um sarro. - Sua fisionomia bastante sinistra intimidava;
Porque houve uma vez, se lembra, daquela inconsequente piada juvenil. Os rapazes brincavam com as espadas. Descobriam-se na sua masculinidade. O flagrante armado desnudou a cena, de contornos picantes na boca da vizinhança. Surras dos pais. Risos, humilhações. Até se esquecerem daquilo tudo.
- Veja, você pode estar se confundindo... Tenta dissuadi-lo.
- Sempre guardei fisionomias... A gente tenta deixar o passado pra trás.
A cerveja pilsen acaba. Esboçou chamar o garçom, sendo interrompido.
- Vamos acertar nossa dívida... Não se preocupe, já paguei tua conta. Agora preciso cobrar. - Deixa entrever dentro da jaqueta seu revólver.
Viu o copo vazio do último gole gelado. Depois mirou a rua, rutilante de constelações das luminárias dos postes, semáforos, luminosos do comércio, numa noite de repente estanque. Sequer almas-vivas...
- Pensa bem no que você vai fazer... - Nada o demove.
Talvez fosse uma travessa que passara algum dia. Forçosamente conduzia-se rumo à escuridão, sob uns manacás floridos. Subjugado num abraço hostil pouca chance teve de agitar-se, até a cutilada profunda de um punhal atingir suas vísceras.
Ao rés da sarjeta, no negrume extenso do asfalto. Do casario que se agiganta surreal. O mundo invertido adentra a retina. Lá adiante um gato pardo furtivo cruza a avenida nas sombras.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

ADORÁVEL MANEQUIM =======

Seu casamento perdera o encanto, confessou ele em uma das sessões iniciais no meu consultório. Até aí nada que causasse estranheza à análise da psicologia. Possibilidade de elaborar um diagnóstico.
A cônjuge dominadora o prendia no lar. Controla seus passos, tenta ler seus pensamentos, quer ver atendida ainda mil exigências e gostos egoístas. Queixava-se ele. Ardentes "tapas na cara" e amargos beijos.
Certa ocasião, dirigindo seu carro à noite pelos lugares da cidade encontrou Sheila. Embaixo dum poste mal iluminado, praticamente no lixo. Desarticulada e esquecida numa sarjeta.. Se sentiu tentado a pegá-la e levou consigo para casa. Muito embora faltasse um braço. Nem por isso deixara de ser bela a Vênus de Milo assim amputada. Providenciou um vestido emprestado da patroa. Ela já tão exposta na vitrine, nua na calçada. Sob o olhar admirado da clientela. Sheila, nome de batismo, como soube, era uma manequim de loja desempregada.
Passaram a conviver tendo a manequim, uma agregada da casa. Ele cuidava pessoalmente de Sheila. Trocava-lhe as roupas, punha lingeries de renda, acessórios femininos: sapatos, bolsas, pulseiras, colares, óculos, perucas, lenços, chapéus. Logo esbanjou a dar as melhores roupas e presentes surpresa, aspergia caros perfumes naquele corpo de plástico cor de pele. Interessou-se por moda fashion para vesti-la bem. Compartilhava posts nas redes sociais ao lado de Sheila, vestida em diferentes figurinos, poses, passeios, eventos.
- Você me completa, Sheila... Vão dizer que fiquei louco. - Revelou tomado num estado hipnótico. - Apaixonara-se por ela, a manequim. A mulher escandalizada sentiu-se traída por Sheila. Parte de um triângulo amoroso inusitado envolvendo o marido e aquela boneca. Um descaramento admitir o amor por outra, não bastasse trazê-la para dentro de casa.
Sheila permanecia disposta pelos cômodos. No sofá, à mesa do jantar. Ouviam música juntos, singles e baladas românticas tragicamente veladas pela esposa enciumada. Justo a manequim, mulher ideal, companheira. Modelo sob medida. Presente nos momentos festivos da residência. Férias na praia.
Quando decidiu a primeira vez passear em público de braços dados com as duas, a esposa ficou fula com semelhante perversão:
- Mas, eu não vou ajudar a carregar essa piranha! O senhor vai se virar sozinho. - E tudo terminava em desencontros. Disputavam mesmo as duas um lugar na frente do carro.
Na companhia de Sheila, ele conseguia abrir o coração.
- Com ela consigo conversar. Sei que me entende, Doutor. Vejo isso nos olhos dela fixos em mim. E nem precisa dizer nada. - Justifica dramático recostado no divã. Sofria estar apartado naquela hora do objeto de seu amor, na ante-sala. Sheila o apoiava.
- Isso que o marmanjo quer, brincar de boneca?... É ela, ou eu!! - Alguém era demais naquele relacionamento. Se a mulher não fosse tão tirana. Trocaria de vez a manequim pra estar com a esposa.
Imaginou que a manequim havia sido moldada num corpo de mulher verdadeiro e nele ficara a essência feminina, ganhando vida nos seus braços. A sós, sentiu-se estranho ao vê-la no banho quente. Seu corpo de plástico, tépido.
- Ah, aqueles mamilos duros!... - Deleitava-se ao mencionar os predicados. - A curva firme do seu traseiro... Sem palavras, Dr.
Uma tarde a mulher flagrou o infiel... Deliciava-se!! Prazer de fazer inveja.
- Eu já vinha desconfiada dessa afeição pela boneca... - Constatava a traição consumada. Tanto lamentou não ter uma máquina fotográfica naquele instante. Livrara-se dum processo por danos morais.
Rejeitou qualquer terapia curativa. A argumentação de necessitar relacionar-se com pessoas de carne e osso. Seria Sheila projeção da esposa que sonhara... Queria se entender. Tanta gente destina seu afeto a um bicho de estimação, que quer bem. Um pop star que jamais vai conhecer além dos posteres, um toy virtual numa tela de computador... Por que não Sheila?
Pediu o divórcio, temia ser acusado de bigamia.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

ONIPRESENTE ============


                 Há alguém
                 Que me olha
                 Lá de cima...
                 Em órbita
                 Meus atos.

                 E não é a onipresença
                 De tal Deus,
                 Mas o zoom
                 De um satélite denunciante.


FÉ PÚBLICA ==============

Debaixo dos céus, a cidade fervilha de suas gentes. Inclemente sol por testemunha celeste neste trabalho dos dias. Em seu coração conflitam percorrendo as artérias congestionadas. Os subúrbios apascentados, ruminantes da sina cotidiana.
Houve que um avião ao tentar aterrissar na precária pista do aeroporto encalacrado no tecido urbano fez tremer, abalou as estruturas quando arremeteu desesperado passando próximo, num voo rasante sobre o teto da Casa do Povo. Vindo abaixo o enorme crucifixo pendente na parede do Parlamento. Num Deus nos acuda!
Naquele nobre edifício, no qual no momento da catástrofe importantes debates legais estavam em curso. A reforma da moral municipal. Enobrecer o sentimento cívico. Por decreto das boas ações: doenças, mendicância deviam findar já, ao transcorrer da esferográfica.
Surpreendidos deram fé duma triste realidade. Do falatório hão de mover fundos e mundos como por milagre, até anjos doravante pousariam em visita...
Talvez por isso mesmo, este semi-deus secularmente convalescido, ele próprio aguarde socorro dependurado por pregos nas salas de espera dos hospitais.
Pensadores confabulavam entre si. Pelas esquinas fomentam idéias a voz popular queixosa. Àqueles ciosos da ajuda divina... Pra quê tantos deuses? Que só sabem ouvir as razões do Estado. Quando seu corpo de sacerdotes se calam convenientes ante o clamor da praça pública. Concubina perdulária da República. Querem apenas o conformismo. Nada duvidar. Impor às mulheres escravidão moral e aos homens indigência política. A manipular a fé e os dons. Oferecer o império inalcançável das divindades. Qual a serventia de um deus que não pode ser visto ou alcançado? Deuses refugiados nos espaços siderais, fabulosos profetas em páginas de papel ao apetite voraz das traças do tempo...
Erguidos palanques já não é a Constituição, mas a Bíblia que os governam. Obra do Arquiteto maior!? Bradam versículos, empobrecendo os direitos dos cidadãos. Em Cortes de Leis, magistralmente a espada da Justiça paira acima das cabeças e a balança pende nas mãos dos Juízes confundindo-se com a suposta Lei divina.
Vive a cidade seu opróbrio existencial... Ai de ti, urbe!! Por entregar tua vida a tutela de um rei estrangeiro mortificado. É na Terra, e não fora do planeta que se regem destinos, faz-se escrituras. Pois, só no paraíso as ruas são pavimentadas com ouro, sarjetas de platina e cada qual tem sua morada, sendo a luz o alimento. 
Reza assim o contrato, das coisas terrenas é com César eleito que se trata.
  

terça-feira, 19 de agosto de 2014

EU & ... ================


                                         Teu beijo,
                                         Coração pela boca
                                         Me revela
                                         O vazio habitante
                                         Dentro de mim.
                                         Meu Eu quer
                                         Completar-se
                                         Em Ti.


MEDÉIA URBA[i]NA ==========

Mãe, nem encoxada no tanque! Para os mais complexados Édipos antiquados. Fulana vivia uma tragédia pessoal. Até de figurar nas matérias dos noticiários baratos.
Naufraga numa mesa de bar. Mateus, chora a seus pés à deriva, enquanto uma irmã grata tenta demovê-la daquela tonteria e cuidasse da criança que acabara de trazer para embalar.
- Tá certo isso? Você aí ao invés de cuidar do filho.
- É problema meu!...
- Tu quer dar fim ao infeliz.
- Que se dane!... Já era. - O que são só palavras, quando malditas...
O fruto com outro homem, daquele que crava punhal no peito tatuado impedia que fosse feliz, por certo, com seu Amásio que o rejeitava. Incapaz dum afeto.
- Pra ficar comigo tem de ficar quite. - No seu achar leonino.
Mateus olhava em sua inocência espantada. Qual ódio despertaria suas brincadeiras... O "puta-que-o-pariu" sobre a mesa, seu brinquedo.
Jogou com severidade a criança numa cadeira a fim de aquietá-la. Praguejava ter de carregar o menino.
- Por que não dorme, hein?... - Como poderia haver tanto desamor naquela mãe? Toda sua indiferença por aquela semente do coração antes ferido. Era fazer vingar, mesmo regada em sangue, a flor de amor do Amásio.
- Isso é jeito de tratar um filho.
- Não tô nem aí. - Pois sim, descobriu quando teve o filho abrigar verdadeira impaciência pela aporrinhação dos pirralhos. Sugou-lhe o pouco das formosuras do corpo judiado. Se soubesse teria abortado... Alguns pensamentos causavam medo. Queria curtir, aquele "dar mais do que chuchu na Serra", viver o jardim das delícias.
Segundo o Amásio, um banana quando quer, tudo aquilo era arranjo dela. Obrigava que o tal pagasse um pirulito para adoçar Mateus.
- Pensa que é só parir? - A irmã condenou, e não seria a primeira pedra, deixando a birosca.
Ao sabor da maré, o infantil, descalço pelo ladrilho do estabelecimento, como se fosse seu playground.
- Vamos, Bem... Deixa Mateus por aí mesmo. - Brinca mordazmente sincera. O rosto de Mateus se desfaz numa quase lágrima. Nem todo seio é próprio para toda boca.
- Daí se demove da idéia. Que se curasse da saciedade dos desejos, deu um último gole... Não queria criar um "Caso de Família" com as Autoridades. Engancha o rebento nas partes da roupa e leva a cria. Ele ainda valia uma Pensão Alimentícia.
        

sexta-feira, 20 de junho de 2014

PARADOXO ============





O Humano demasiado,
matáfora do Universo
sobre todos nós.
Medida imprecisa
das coisas.
Maravilhoso
e perverso,
condenado por suas
justas razões.

"JÁ TE FALEI, MALANDRAGEM!..." =====

O cara dizia que me daria uma letra. Descolado num monte de mutretas, quásquásquás!... Vire e mexe tomando sacode.
Eu filmo ele. Tou de olho na "fita" dele. Eu manjo o figura. No bairro que o viu crescer, sabiam da sua real possibilidade. Mas ele achava que tinha talentos e podia mais... Nada disciplinado, pelos campos da várzea por "canelar" a vida se via um craque do futebol e nisso alimenta seus ingênuos sonhos de sucesso... Aquela puta sorte!
Da escola aprendera alguma leitura, porque quem ensinava o proceder eram as leis do mundo. Acostumado nadar contra a maré, contudo se sentia um peixe fora d'água... Mangueia sua existência pelo cotidiano dos bares e recantos urbanos.
Deu uma espiada no tablóide popular gratuito da barbearia, afim de conferir o Caderno Policial e os entreveros da "Família"...
- ...Na cadeia tem uma placa assim, morô: "Carceragem - Não entre."... Só se o bandido não soubesse ler! Como alguém quisesse perder tempo ali!? - Oportunidade para refletir suas máximas e dar aquela boa olhada na "gostosa" estampada numa das páginas, demais amarrotada por passar de mão em mão. Entediado da punheta vendo vídeos pornôs pirateados.
- Hoje tem navio, malandro! - Alertava os trutas na sbórnia sobre a estiva no Porto. Mas ele está pronto mesmo era prum "avião". Naquele dia nenhum teco... Dispara na velha bicicleta esquivo da averiguação das viaturas. Uma vez na mente se livra do flagrante, sem muito dispensar...
O negócio dele era garantir o seu. Ainda que não lhe dessem um centavo. Todavia, nem por bancar o esperto, lhe sobrava tanta esperteza. 
Sabe que põe o pescoço à risco. Chega apresentando uma jóia num embrulho, dizendo que é ouro e vende a preço de banana. Quem quer comprar ouro de tolo?... O dono do bar percebendo ser verdadeiro, diz ao cujo que aquilo é bijuteria. Golpe do malandragem acostumado nessa. Só pra comprar a dita fácil, não vale pois quilate... O marginal vira-lata passa a mão nuns cobres garimpando seu quinhão. Garantido o salário, vendeu barato o otário que a palavra não tinha valor.


domingo, 4 de maio de 2014

CRÔNICA QUINTA NA BIROSCA =====



Por que não ser querido?
Se feio não era,
Nem outra qualquer deformidade.
E ainda que contivesse
Aquela alma fêmea
A debater-se nas vestes masculinas,
Seu desejo entre iguais
Por sentir não o diferia...
Chorava suas mágoas num copo
On the rocks no seu caminho.
Malgrado todo esforço de ternura,
A mais "piranha" não competia...
Agarrou-se aquela máscula braguilha,
Salva-vidas de tamanho desespero.
O macho de saco-cheio
Pondo fim a relação
Encheu-lhe de sopapos,
Rudes carícias.
Mas, o hematoma era só
Uma marca aparente
Sobre a dor.  

"UM DIA DE CÃO!" ========

Odiava preencher relatórios, formulários. Explicar-se ao Delegado como um meliante, questionada sua conduta. Ser incriminado por aquela jocosa fatalidade. Alguém atrás de uma escrivaninha reconhece as dificuldades do trabalho nas ruas?
A cidade vivia agitada com alguns crimes. Os âncoras do noticiário policial em nome da audiência clamavam Justiça a todo custo. O Comando pedia resposta rápida, tolerância zero. Não se foge a responsabilidade.
Meu parceiro no meio do expediente tivera um desarranjo estomacal, ficou em observação no P. S. Por isso não me arriscava comer nada de ambulantes na calçada. Uma espécie de gentileza oferecida pela proteção dada. Nesse mundo cane é preciso ter estômago.
Por volta das 18:22 h., eu dirigia patrulhando já de retorno para o fim do turno. Caía aquela garoa fina, mesmo com o pára-brisa acionado gotículas cintilantes atrapalhavam minha visão, decerto o desembaçador funcionava mal. Uma voz feminina pelo rádio da viatura alardeava ocorrência.
No início do quarteirão à frente havia uma loja de animais, ia trafegando quando vi no estacionamento sair uma caminhonete vinho e o que parecia notas de dinheiro voando, o motorista desesperado por pegá-las... Como iria adivinhar que tinha sido o troco deixado sobre o painel!? Aquilo só me despertou suspeitas. Uma coisa é certa, nessa profissão a gente aprende, nem todo mundo é tão honesto quanto parece.
Fechei o veículo, então dei voz de prisão e o indivíduo de mãos para o alto, assustado abriu a porta... Saiu ligeiro de dentro um cachorro grande, maior que o normal.
O animal saltou com suas patas em cima de mim. Rodopiou. Fazia uns sons abrindo a bocarra, mostrando os dentes... Arrghhh!! Uf! Uf!... Au!! Au!! Au!! - Fora de controle. Era da raça Bernese, soube depois. Considerei hostil. Um único tiro. Soltou um ganido doído e caiu.
O tal sujeito uivava desconsolável, como se tivesse perdido um ente querido. Quis dizer-lhe, entre lá e compre outro... Eu pago! O que deu nele? Sentira odores estranhos da minha colônia vencida, ficando excitado sob o efeito anestésico para o tratamento dentário?
Nunca passou pela cabeça colocar a sociedade em perigo. Apreenderam meu revólver. Agora olham para mim com essa cara de poucos amigos... Mas quando o "bicho pega", querem me atiçar contra os outros. Me pergunto se deveria recorrer aos cães para ter um amigo fiel. Acho mesmo que necessito dumas férias.
    

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ARRANJO FANTASISTA ======


A Natureza Morta
Está viva de frutas maduras
Para que dure sempre
Na lembrança
De íntimas coisas
A existência palpável
Seu gosto palatável.
Do perfume imóvel
Das flores extintas.
Lindamente seres abatidos
Do matiz incorpóreo
Que nos despe.
Quando tudo estiver morto,
A arte há de realizar nova vida.


O MOTORISTA DO FUSCÃO PRETO =====

Aquele blecaute já durava mais de horas. Noite adentro a cidade anda às escuras, semáforos cegos, olhos-de-gatos furtivos acendiam na escuridão.
Um estranho dirige seu Volkswagen Fusca preto premeditando no breu das ruas. Numa e outra esquina, o halo vermelho dos giroflexes das viaturas policiais tingiam a figura sombria dos transeuntes. Pela extensão vaga da avenida o farol rasga a paisagem noturna...
Quem é ele? Um anônimo. Embora retraído até casou-se. Malogrado, pois era dado a poucos afetos. Agora vive terrivelmente solitário. O vulto no esquecimento urbano.
Há muito povoava seus pensamentos cometer um assassinato. Alguém desconhecido. Talvez, um desses maltrapilhos inúteis. Somente para vê-lo morrer.
- A quem esse trapo poderia fazer falta?... Estão sempre a espantar as pessoas. O infeliz mesmo deixou claro sua não serventia ao mundo. - Conversa com o reflexo no retrovisor do carro.
Já tomou sua decisão... Lateja-lhe o sangue nas têmporas. A transpiração escorre sob o terno que veste. Optou pela esganadura, eficiente, silenciosa... Bêbado e debilitado não teria o farrapo humano forças para resistir. Esse homem age por compulsão incontrolável. Tomado dum instinto predatório. Está disposto a descer ao esgoto do seu íntimo para saciar suas perversas vontades. Queria ouvir o coração batendo desesperado por vida, um último suspiro. Conter o derradeiro esforço daquele corpo... Igual quando moço afogava filhotes de bichanos no lodo dos charcos.
Nessa mesma madrugada deserta esgueira-se sob a luz da lua, sorrateiro pelas sombras... Empunha uma gravata tesa entre suas mãos. Mais adiante um mendigo dorme sozinho, presa de seus próprios sonhos de fartura.
Enquanto apertava, o sujeito se perdeu nas órbitas interrogativas daqueles olhos esbugalhados. Suas narinas queimam com o cheiro acre intenso de suor curtido... E ao largá-lo inerte, vem uma súbita náusea a revirar-lhe as tripas.
Por fim recuperou-se... A sensação é prazerosa, endireita a imagem no espelho retrovisor. Nosso predador promete a si mesmo caçar por aí, nas trevas da cidade outras vezes mais.   

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DOLOSO =================

               Por causa                               Amei outras vezes
               Dessa sua maneira                Tantas quantas pude,
               Confusa de amar                    Entrega unilateral.
               Manual de teorias                  Desconfiava disso
               Postas em prática                  Quanto mais
               Foi que demos nisso.             Restou-me o vazio.

               Cobra de mim                         Você segue sentimentos
               A tua incapacidade.                Estabelecidos:
               Contradiz                                 Encenação apaixonada,
               Legítimas justificativas.           De início.
               Fazes bem o papel                  Calculista na despedida
               De vítima.                                 ...!?

                                   O amor é o tipo de coisa
                                   que só descobrimos a doçura
                                   e o amargo experimentando.
                                   Quem há de compreender
                                   esta escolha
                                   dada por "azar eletivo"?

                                   Devia naquela hora
                                   ter despertado a cidade,
                                   acusar-te de perjúrio...
                                   Feito sim, caso de polícia:
                                   - Venham ver como foge
                                   entre quatro paredes
                                   este amor bandido!

Pra quê... choraminguei a ocorrência.
Dos crimes do coração somos todos absolvidos.

BENDITO FRUTO ===========

Tanto que pediu ao Cristo na missa pela sorte do menino, livrar ele dos descaminhos do mundo traiçoeiro.
Antes Cleson vendia tapioca no centro da cidade a mando da mãe. Pra garantir algum mantimento pra casa. Tapioca dava pouco... Quis adiantar  o seu lado. Entrou pro tráfico. Vendia drogas.
- Sai dessa vida, Cleson! Isso dá cadeia!! - Insistiu. Ela não sabia onde tinha errado.
Outras vezes de combinação com os pariceiros, deu pra tomar o que é dos outros. Até entrava nas lojas do shopping torrando nota de $100. Querido pelas novinhas piriguetes da comunidade. Meteu algumas mais atrevidas em sua piroca de michos pentelhos. Botou banca na "quebrada".
Naquela tarde chegaram os policiais, sobem o morro. Arma em punho, é o seu cartão de visita... De olho na "fita", Cleson, ligeiro larga a lata de refrigerante. Mandou um assobio de alerta pros "trutas". Sacou do .38 enviesado na virilha... Foi coisa de filme. Trepou uma lajes. Desceu nos fundos duma birosca, nem pediu licença, saltou a mesa de sinuca espalhando o jogo... Ele já vazava a porta da frente.
Bem na subida pelo lance tortuoso da escadaria. Em direção dum beco estreito. Sua mira era míope ao alcance da certeira do "bota"... Perdeu no bang-bang.
Quis retornar, era tarde. Morreu sentado no batente do boteco, cabeça pensa no peito, a mãe ao seu lado conversa com ele como se ainda estivesse vivo.
- Você não ouve!... Desobedece o que a gente fala. Eu devia ter te dado uma surra, Cleson!... Por que fez isso comigo, filho!? Você disse que era só até juntar dinheiro. Acabou ficando sem nada... E ainda rouba meu juízo. Eu falei tira essa coisa da cabeça... Se matar por dinheiro!... - Gesticulava atarantada. Do alto, o helicóptero da reportagem flagra o fato.
Um tiro acertara bem em cheio o logotipo do seu "pano de grife".
- ...Eu falei pra ele não ir mais, gente... Olha o que aconteceu! - Murmura seu lamento. - Não foi isso que sonhei pra você. Não bastasse dar tudo errado pra mim, contigo foi pior, Cleson... Será castigo? Eu  que queria te ver homem formado. Até uma cadela velha feito eu merece ser feliz... - Queria abraçá-lo, não permitiam alterar a cena do crime. - Tu até podia não prestar, mas eles não tinham esse direito... Por que fui te botar no mundo? - Sangue escorre e suas lágrimas pingam em cima. Ele espuma coca-cola pela boca.

domingo, 27 de outubro de 2013

NESSES RABISCOS... ======


                                   Por toda parte
                                   Me declaro
                                   Até que chegue
                                   Aos teus ouvidos,
                                   Aquilo que pretendo
                                   Te dar sem igual.

                                   Perto de ti emudeço
                                   Porque tudo é muito e nada
                                   Para exprimir-me.
                                   Palavras apenas
                                   Não haverão de convencer-te
                                   A render-se à absurda evidência.


ENTRELINHAS =============


- ...Alô!
- E aí?...
- Reconheceu minha voz?
- Pelo identificador de chamadas.
- Estranhei o seu silêncio comigo.
- ...Fui intimado para depôr.
- Você contou a verdade?
- Claro que contei.
- Eu sabia...
- A verdade logo ia vir à tona.
- Disse que eu não estava lá...
- Não, que nós  naquele dia estávamos.
- Você ao menos...
- Como podia mentir por você?
- Por que não me perguntou antes?
- E atrair toda desconfiança sobre mim...
- Bem, isso só prova que eu estive lá.
- Se tivesse me dado ouvidos!...
- Sossega... Não vão encontrar coisa alguma.
- Escuta, negar era pior.
- Bastava não lhes dar certeza de nada.
- Podíamos ter avaliado melhor as consequências...
- Alguém tinha de sujar as mãos.
- Foi um erro...
- Do qual você também se beneficiou.
- Já me arrependi... E você precisa aceitar isso.
- Estamos juntos nessa...
- ...!

domingo, 22 de setembro de 2013

ETERNO RETORNO ==========

               
               Isso que alguns chamam
               Este voltar
               Para os braços de um deus...
               Posterizar-se. -
               Passamos muitas vidas
               Repetindo erros
               E com eles, algum acerto.
               O Homem é seu sofrer,
               Constrói um Mundo...
               A delícia que busca! -
               É retornar
               Para a gota da chuva,
               O húmus da Terra,
               Um outro ser.
               Todo existir.

DAS PROFUNDEZAS DA ALMA =====

Os operários encaravam mais um turno de trabalho. A Ordem de Serviço indica que o reparo de solda no duto continuaria, num espaço confinado. Uns doze metros de profundidade. Estavam escalados para a tarefa, Abílio e Fidélis.
Um ficaria no Rádio HT. Monitorando gases, exaustão do ambiente. Enquanto outro desceria ao sombrio e claustrofóbico compartimento...
Abílio tinha toda consideração do Encarregado. Queria prosperar nos quadros da fábrica. Viver junto de Susana. Porém, ela em conflito com seu coração... O ciúme tem uma flecha preta.
Conhecera o colega no trabalho. Fidélis, excelente profissional. Muito competitivo querendo tirar de qualquer situação, um prêmio. Foi fácil fazerem amizade, até torciam pelo mesmo time. Durante certo período frequentou a casa. Ia nos domingos de folga visitá-los, preparavam pratos elaborados e assistiam o futebol. Solícito prestava pequenos favores ao casal...
Entrava-se interior adentro dos intestinos metálicos da fábrica por uma abertura diminuta num cilindro horizontal e descia-se noutro tubo ligado a um compartimento bifurcado por duas enormes válvulas. Parte do percurso havia uma escada estreita tipo "marinheiro", o restante numa corda de mecanismo trava-queda e içamento.
Por mais de 1 hora, feixes radiantes relampearam em clarões ultra-violetas alumiando os túneis.
- QAP, Fidélis... Tá me ouvindo?
Antecipa-se o ruído estático do rádio comunicador.
- Prossiga. Qual é o QRU... O que manda?
- Tudo normal aí embaixo?
- Nada diferente... Foi esse o QTR, combinado pro lanche?
- Precisei interromper seu QRL. Tenho de conferir, Ok!
- Em QRV, parceiro... Disponha!
- Sabe que sou responsável por tua vida,QSN? Fui claro?
- QSL, Abílio...  Tou ciente disso.
- E você anda sumido, né.
- Seguinte, como tá o QSA do meu rádio?... Recebe bem! Me parece QSD... Defeituosa, câmbio.
- Me contaram que você tá de namorada nova.
- ...Não copiei o QSM... Repete o câmbio.
- Pode falar, o QRG é nosso. Só tamos nós nessa faixa.
- Tá havendo algum QSB... O meu, ou o seu rádio... Tá falhando.
- Vai esconder segredo do amigo... QSN?
Fidélis levou algum tempo para pressionar o botão de câmbio.
- ...Não é nada sério.
- Se eu bem te conheço.
- Preciso acabar logo... Ou não saio... Deste buraco hoje.
- Tô em QRX na frequência, Stand  by. Se precisar, é só chamar. Ok!
- TKS... Valeu!
Fantasmas de sombras dançavam à vista do agora soturno Abílio, seguido do retinir metálico do martelo através da tubulação.
- QAP, Abílio... Na escuta?
- Positivo, QAP.
- Algum problema... Aí em cima?
- Queimou um fusível da máquina... Coisa rápida.
- Parou de funcionar... A exaustão! Acumulou gases aqui... Cof, Cof, Cof!!!
- Quer que chame a Susana pra te salvar?
- Que QRI é esse!?... Não tou gostando do tom da conversa... E pouco trabalho.
- Ué! Não gosta dum papo ao pé do ouvido?
- Conserta logo... A porra do equipamento!... Vou subir!
- Como?... Eu destravei o cabo.
- Deixa disso, merda... - Fidélis engasga. - ...Eu tou ficando zonzo, cara!
Sem que nota-se, Abílio desceu uma mangueira e instantes atrás liberará gás acetileno.
- Se fosse você, não tocaria por nada o eletrodo no metal...
- Eu não resisti, cara... Foi mal!...
- ...Uma fagulha e vai ser uma morte pior ainda.
- Vou mudar de QSY... Seu cão dos infernos!... Argh!!... E te denunciar pra Chefia... No outro canal...
Antes de responder, ouve mesmo a respiração forçada do colega.
- Você acha que tem alcance? Te dei um rádio com bateria fraca.
Algo parece cair lá debaixo ainda transmitido via rádio. O barulho intenso do maquinário abafa seus últimos pedidos de socorro. Acionada a enfermaria, informam estar em QTY, dirigindo-se ao local do acidente. Somente agora religou o exaustor. A fábrica segue seu ritmo.