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segunda-feira, 5 de março de 2012

FÊMEO ===================

                                              Evas recatadas
                                              Hábeis gueixas
                                              Sutras lindas
                                              Liberadas pretensas
                                              Confusas no divã.
                                              Que as mulheres são diferentes,
                                              Mas continuam as mesmas
                                              Apesar dos pesares.
  


COMO OS LÍRIOS NO CAMPO... =====

- Como você se vende ao mercado? - Reverberava sonora a questão por sobre o auditório, sob avaliação imprecisa da audiência...
Há meses desempregado padecia as cobranças do fracasso. Contas no prego, endividado de promessas feitas, graças a ruína de conglomerados financeiros na volatização dos capitais. Pensamento positivo, extenso curriculum, livros de auto-ajuda, apelara pras mais diversas estratégias a fim de se recolocar na cadeia produtiva. Juntou os últimos centavos e inscreveu-se numa palestra motivacional, com um desses Phd em Rh, Marketing Pessoal & Co.
- Quem é você? Qual o é seu valor?... Você também é um produto vendável. E tem que saber se vender! Mostre o seu diferencial... Você precisa de uma ótima oportunidade pras pessoas te comprarem. - Tantas perguntas certas das respostas não pediam outras explicações. Alguns olhos aqui e ali brilhavam vetrificados... - Se você aí sentado não tem valor, você está morto!... - Temeu decretada sua falência pessoal.
- Eu sou uma águia predadora! - Viu-se repetindo, os dedos das mãos crispados em garra, a interagir com os demais participantes naquela selva de medos.
- Seja como o Bambu-chinês fortaleça as raízes e cresça para as alturas. - Emocionara-se com as parábolas consoladoras de Paulo Coelho e filmes mostrando as superações de deficientes físicos, a duvidar de quem nem todas as deficiências são aparentes. Num dado momento o palestrante chegou a exemplificar que salário era um detalhe, como o Técnico Parreira dissera a despeito do gol...
- Faça por merecer e o céu será seu! Nenhuma recompensa vem antes do trabalho dignificante... Você precisa ser escravo da sua ambição para se tornar livre. E só assim garantir um futuro lucrativo.
Não pode deixar de reparar que o palestrante estava bem empregando, esbanjando otimismo... Ultimamente sente inveja mesmo da sorte dos bichos, das plantas, os quais sobrevivem ao relento na natureza sem quase nenhum prejuízo. Até os lírios-do-campo foram elogiados por sua santa ociosidade.
 

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

SÚTIL ====================






O amor é Kitsch
Cafona
(Démodé?)
Mas a qualquer um
Veste bem,
Prêt-à-porter.
Griffe que
Nos põe a nu
Perante o outro.

NUM MOMENTO DE POBREZA =====

Estar por cima mesmo, aparentar sucesso custava caro - somente artigos de primeira necessidade. Relógio Rolex, pra melhor aproveitar o precioso tempo. Guarda-roupa sortido, Christian Dior, Yves Saint Laurent, sapatos Church's. Sua persona rescendia perfume Channel ao saltar ligeiro do Jaguar XJ40.
Fina estampa nas colunas sociais, quase não se vê seus olhos por trás do Bausch & Lomb. Wings Gold, de lente turquesa. Boa-pinta, o tal coleciona ainda namoradas esculturais.
Com um grande círculo de amizades importantes movimentava a alta roda do jet-set. Hipotecário do capital alheio fazia girar a roda da fortuna e a roleta dos cassinos de Punta del Leste. Dono de uma personalidade cativante, ele divertia a elite da cidade com aventuras das viagens em roteiros turísticos exóticos. Tudo ao sabor de pratos sofisticados e taças de vinho da Borgonha.
Apesar de toda sua renda, seus gostos requintados davam trabalho. Pelas lojas dos shoppings garimpava vestuário de grifes, jóias, gravatas finas. Era comprando simplórios presentes aos amigos que dava caros presentes a si mesmo. Com a distração da vendedora surrupiava esses mimos mais valiosos... Num mundo capitalizado mera questão de economia. "A oportunidade faz o negócio", lhe inspira um neurolinguista de auto-ajuda, o qual lera muito.
Numa dessas foi pego. Ganhou mais quinze minutos de fama. Logo apareceu um advogado, alegou ter sido por brincadeira. Veja, você!... Um teste com as câmeras de segurança... As desculpas, leve arranhão na imagem. Assunto dos happy-hours tomado como extravagância peculiar, estilo.
Se a moda pega, conforme senteciavam antigamente e Bezerra da Silva cantava naquele samba... Pois é, estatística de Delegado, até rico tem seu momento de pobreza.
   

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

HOMONORMALYS ============


Ele se considerava
Um cidadão acima de qualquer suspeita.
- Caro, Senhor!
Que é isso!? Não fumo
E nem bebo...
Nenhum vício. - A seu juízo.

Demais nunca amo,
Prefiro não correr tamanho risco.
Honesto enriquecido
Com as contas às vezes me engano, me desculpe!

É... Tenho um voraz apetite,
No meu café apenas substituto
Que adoce minhas palavras.


Sou feliz, sobretudo
Me ensinaram a sorrir.
No impossível
Deposito minha fé, 
Não fosse essa miopia...
Mal enxergo as coisas.
Vai ver, é da idade!

ARQUIVO MORTO ===========

Uma vida inteira dedicada ao trabalho. Empregara-se como escriturária, entregue servilmente a rotina dignificante crente de cumprir o seu papel.
Todavia, nunca galgara maiores postos no setor público, apesar de diplomada em duas faculdades. Os melhores cargos sempre ficavam  praqueles outros envolvidos em arranjos partidários. Contudo, a língua não lhe obedecia contrariar, faltou-lhe o apadrinhamento político.
Agora, numa tardia constatação viu-se diminuída frente aqueles anos todos. O que era tornar-se uma ex. Ela não se distinguia alijada da conferência de documentos e arquivos.
Dona de uma figura pouco interessante, cujos méritos consistiam em destrinchar o trâmite burocrático. Era dada a fantasias românticas compensatórias. Nutria pelos colegas de repartição um amor ultra-secreto. Eles a rigor iam pra cama com todas as descompromissadas e algumas infiéis, exceto ela. O que fizera dela uma solteirona, menos por convicção do que contingência...
"Por que me deixei enganar? Só servi para favores... Nojentos! Depois desdenhavam de mim, sem me dirigir palavra. Malditos homens, seres cheios de fraquezas!" - Pegava-se dizendo para si mesma. Ensimesmada naquilo que acontecera. Estabelecidas frouxas relações de amizade, ninguém lhe era íntimo. Nenhuma parte dela havia no mundo... Quem usufruiria da apólice de seguro feita?
- Ganhaste a sorte de não fazer nada... - Insinuou o Diretor do Departamento certa inveja dissimulada, durante o aperto de mão ao parabenizá-la pela merecida aposentadoria.
Sua despedida se deu quase no anonimato, a não ser por três ou quatro assinaturas numas vias coloridas. Ela já não consta mais na lista de aniversariantes do mês. Era como se tivesse morrido. Ninguém lembraria dela.    

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

GRAFITE =================



Nestes rabiscos
Com os quais me declaro,
Grifo.
Substantivo cardiáco
Trespassado por maldade,
Amor irremediavelmente
Infartado.


A FÉ INCENDEIA MONTANHAS =====

Descrente das campanhas evangélicas e de ser tiéte de padres artistas, Bárbara decidira voltar as raízes religiosas da ancestralidade afro-indígena.
Sua fé renovada resolveu apelar para algo mais ligado às forças da natureza, por contemplar o sentimento ecológico vigente.
Conselheiro, Dr. Honoris causa das doutas ciências esotéricas & afins, recomendara um trabalho na mata.
Pouco antes da meia-noite, acompanhada de Conselheiro e dois jovens "cavalos" necessários para a cerimônia, embrenharam-se no mato a fim de fazer o despacho.
Servida a ceia eucarística com farofa e uns bons cálices duma garrafada de raízes visionárias, Bárbara acendeu tudo quanto é tipo de velas para o guia de luz. Caboclos, caciques, enxergavam perfeitamente a nudez da pomba-gira naquele lume. Enquanto ela saracoteava febril, tomando passes buliçosos e entregue aos delírios do ménage espiritual. A lança guerreira e o tacape rijo invocavam na noite gozar as dádivas terrenas... Saciados da incorporação divina largaram lá as oferendas como presente às entidades da floresta.
Pela manhã durante o café, surpreende-se com o plantão extraordinário da tv:
"- Interrompemos nossa programação para informar, que um incêndio de proporções alarmantes, neste momento, põe em risco a Reserva Florestal do Teiú..." - O repórter abordo num helicóptero, mostrando as imagens do sobrevôo pela área queimada. Só foi o tempo de um exclamativo putz!... E Bárbara engasgar com o café.
 

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

INÚTIL EVASÃO ===========









Perdidos no mundo,
Extraviados em si mesmos,
Cada saída,
Qualquer latitude nos hemisférios
É um retorno
À porta de entrada. 

A VIDA NAS FÁBULAS ======

Outrora viviam numa árvore do meu jardim, sob à sombra das folhas tenras, um Caracol e uma Taturana. Confabulavam no entardecer bucólico, o céu rajado de matizes vermelhos, amarelos, lilases a borrar as nuvens estriadas.
- Tenho pensado em me mudar. - Dizia o molusco. - Não de casa, evidente... De lugar! - Fazia planos para iniciar nova dieta. A lagarta que não era muito de conversa, pois vivia com a boca cheia escutava meditabunda. - Pra mim, basta! Serei outrem!!... A horta aí do lado parece um ótimo recanto. Quiçá, lá eu encontre meu parceiro ideal. Aqui todos me olham esquisito! Não bastasse pichar Dona Cigarra, a linguaruda da Comadre Formiga deu pra se meter comigo. Ser hermafrodita não é assim, esse bicho de sete cabeças... É?
Eloquaz a Taturana engoliu a seco e desembuchou:
- Cada um veste-se com a roupa que possui.
- E comenta de você também. Um escândalo! Diz que quem te vê não te conhece... Bom, nem quero entrar em detalhes.
Na maioria das vezes tais intenções dele não passavam de queixumes, promessas vazias. Caseiro demais pra arriscar-se numa aventura até a horta vizinha. Quando avaliava as tragédias eminentes desistia. Deslizar incauto na crista de orvalhos agrotóxicos, as cáusticas lambidas do sol abrasador ou o apetite de uma corruíra faminta... Visões aterradoras do seu prematuro extermínio.
- Eu odeio esse canibalismo da natureza! Todos devíamos nos tornar vegetarianos. - Por conseguinte, aceitava o destino como lhe tinham escrito.
- Não é trancado em si mesmo que o universo vai abrir-te as portas. - Arguia a lagarta.

Dias depois ao procurar no galho a Taturana, o molusco deparou com aquele casulo tosco embalado pela brisa.
- Eu neste dilema existencial, e você resolve logo agora fazer um retiro espiritual...
Numa bela manhã de mesmices, o Caracol ouviu um frenético bater de asas e uma garoa de pólen aspergida pelo ar. Então, reparou que a lagarta dentro da pupa transformara-se naquela fabulosa borboleta.
    

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

BREVIDADE ===============



Escoa o tempo tão rápido
a tornar efêmero tudo que toca,
misterioso o porvir
e distante tudo que passa.
Pérpetuo companheiro das horas tristes,
oráculo do esquecimento.


OBRIGAÇÕES DE PAPAI NOEL =====

Considerou bom augúrio ser escolhido para representar a figura de Papai Noel. Aposentado, o "bico" de final de ano garantiria a ceia de Natal e a lista de remédios... Mal se reconheceu no traje escarlate, a barba postiça cobrindo-lhes as rugas. Sua voz por encanto mudara.
Desceu de helicóptero no centro, a multidão aguardava ansiosa. Os sinos da catedral badalavam acompanhado do coro solene de anjos de auréolas tortas. Cumprindo-se a noite feliz ofereceram-lhe a chave da cidade. Muito além das medidas para abrir qualquer porta, e do alto não vira tantas chaminés assim. Como agradecimento fez soar a inconfundível risada rouca aprendida dos sósias. Logo depois foi conduzido ao pedestal da árvore reluzente, cenário em que a quimera natalina se completava...
A fila acorria interminável até ele para confidenciar seus desejos, um turbilhão de lágrimas e sorrisos comoventes:
- Quero uma boneca que fala para brincar comigo. Porque não tenho nenhum amiguinho. O senhor dá? Promete?
- O meu pedido... É que Deus do céu me desse mais alguns meses de vida. Não me leve antes do meu neto nascer... Eu vi os exames! Ninguém dá nada por mim. Fala com ele!!
- Eu queria uma roupa nova pro natal. Que o senhor conseguisse emprego pro meu pai. - Pediu o engraxate. Olhos fitos nele, a súplica confiante dos demais. Como se todos depositassem suas derradeiras esperanças naquele saco de surpresas.
Dominado pelo conflito ele pouco atinava como atender tais pedidos, e que Papai Noel algum realizaria... Ah, míseras crianças! Acaso soubessem que não passava de um inocente "faz-de-conta". Por baixo daquela roupa escondia-se um velho desafortunado.
Enlouquecia a cada aproximação temendo o próximo pedido. Desiludido arrancou as vestes e saiu correndo pela rua.

sábado, 26 de novembro de 2011

MÁCULA ==================


                                   Havia algo de bom em mim
                                   Pelo que te enamorastes,
                                   Cujo sentido se desencantou...
                                   Para quê atravessastes meu destino,
                                   Se nos tornamos estranhos
                                   Um ao outro?
                                   Cada qual num seu caminho.
                                   Como te sentistes maculada
                                   E repeles esta afeição
                                   Esteja certa,
                                   As marcas do teu amor
                                   Indeléveis neste coração
                                   São minhas feridas.



CONSCIÊNCIA DE CLASSE =====

"...Empresa multinacional exemplar, tudo fachada!!... Tratamento de primeiro mundo só para os seus!..." - Há dias ele vinha com aquilo na cachola. Nem acreditava que o médico da Firma alegara que suas dores nas costas não eram provenientes do trabalho exercido ali. Mas sim de funções anteriores num outro momento de sua vida, pois nada fora detectado pelos exames.
- Uma das funções exercidas pelo Sr. foi pedreiro, não é? O amigo precisa melhorar sua postura... Tome estes comprimidos. É um relaxante muscular... E vamos acompanhar a evolução do quadro.
Não podia aceitar de modo algum aquele laudo. Mesmo assim, continuou firme na descarga de açúcar do Porto. Em cada tonelada suada agregava valor ao produto com rancorosas cusparadas e doses etílicas de urina.
Na saída do seu horário noturno, como de costume logo pela manhã, enchia a cara. Era uma espécie de analgésico para o seu espírito arredio. Sem desconfiar vivia o desespero latente do qual nos constata Kierkegaard.
Falavam tanto em excelência, plano de metas e um blábláblá patronal sobre produção eficiente.
- Não queremos funcionários acomodados... Negativos! Que não tenham foco no trabalho, não dispostos a dar o máximo de si. Que ficam pelos cantos do Terminal se queixando para desvirtuar os bons. Esses aí, não se preocupam com a família de vocês... Ao invés de pedir, conquiste! Antes de exigir da Empresa, se pergunte o quê  você tem feito por ela. - Tentava impingir o Chefe, a Política da Firma na palestra motivacional. Claro que ele, não entraria no mérito do reajuste salarial tão defasado. Ou o horário da escala de trabalho cheio de truques, que roubavam horas extras aos operários, o desgaste físico provocado pelas atividades insalubres. - Pensem que vocês têm salário em dia... Pior é estar desempregado! E pra manter é necessário atingir os objetivos... - Quem diria que por trás daquele sorriso largo, as atitudes cheias de camaradagem, havia um carrasco. Se a Alta-Chefia dava-lhe um arrocho, ferrado apertava os de embaixo. Como o tal sempre desculpava-se, "os homens lá de cima mandaram".
Certamente naquela manhã encontrou um recadinho no banheiro privativo, escrito com pincel atômico em linhas tortas:
"Cagando, né?
 Agora tu não é malandro,
 nem chefe. É um bundão
 com as calças arriadas fazendo força,
 igual todo mundo." - Ele ria ao imaginar a reação do Chefe ante a verdade simples na porta do banheiro.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

URGENTE =================


Caiu um avião,
O expresso descarrilou...
Naufragaram todos.
É a bomba! -
Cérebros vão pelos ares.
Hoje à noite
No horário nobre
As estrelas
São os mortos.


O GLAMOUR DE CÉLIA ======

Célia quando jovenzinha possuía núbeis peitinhos empinados, insinuantes quadris, a pele aveludada num corpo sinuoso. Naturalmente uma preciosidade feminina, de fazer despertar o sentimento pedófilo na mais puritana das mentes masculinas.
Até quis ser dançarina de programa de auditório, sonhava com os astros da televisão colados nas paredes do seu quarto...
"Você jogou fora
 o amor que eu te dei,
 o sonho que sonhei..." - Tocava o aparelho de som a fazer duo com ela.
Nos concursos da cidade, no palco da pracinha todos os olhos voltavam-se para tão invejáveis atributos feminis. Ao que a danadinha requebrava com maior volúpia na intenção de ser descoberta por um desses empresários artísticos. Ela capaz nem desconfiasse que seria o motivo secreto de rios de esperma ejaculados por jovens e velhos. Mas aquilo de glamour não era para ela, num revés do destino escapou-lhe...
O tempo passou, Célia vive na sua cidadezinha. Casou e foi abandonada com três filhos pelo marido... A primeira vez aconteceu na festa de 15 anos, o fálico presente dele tornou-se futuro no inchar daquele ventre delicado.
Aos domingos ia a casa da mãe. Lá sempre tinha almoço farto e algum falatório, evidente. Apesar dos reiterados conselhos, contradizia com insensatas certezas e mostrava-se dona de uma sorte ingrata. Estranhamente se sentia no alto duma montanha, sem caminhos novos por onde seguir e lá embaixo a vida sem novidades.
Célia passa pela rua a arrastar os filhos. Hoje só não causa indiferença pelo mal jeito cômico com que trata as crias. Nem o padrasto "seca-lhe" mais à procura das formas nubentes. Está acima do peso e já nem sonhava mais, vive cheia de pesadelos.

sábado, 22 de outubro de 2011

TORMENTA ================

Uma ilha aquele apartamento, varrido
por repentino mau tempo...
- Estou indo embora... Pra nunca mais.
No horizonte da vidraça brusca
intempérie... Inunda-lhe uma lágrima.
- Sem você não consigo viver... - Murmura
dolente, quase inaudível. Agitada a
samambaia sacode com o vento da fresta.
- Como foi mesmo que nós chegamos
a esta situação difícil?... - Fere o
hiato lascinante relâmpago. A pergunta
os atormenta... Serve-se o veneno da
angústia, daquilo que consideram remédio.
- O que foi que não te dei...?
- Não queria que fosse assim... - Os lábios
de mornos beijos só fazem ofendê-los,
produzir o mal. Depois da perda de nada
adianta lamentar tantos sacrifícios, pois
o fato está consumado. Para o fim
do romance se encaminha... Antes de ir
no limiar da hora inadiável,
o balsâmo da despedida...
- Não sofras tanto. Sejamos bons amigos.
Convulsos soluços... Abandono.

MEU VIZINHO PLANTOU... =====


E foi que um dia resolveu, dadas as dificuldades de fornecimento pelo tráfico, plantar umas sementes de cannabis ativa no quintal. Logo a logística do cultivo estabeleceu-se em seus neurônios escassos. Pretendia criar uma espécie de estoque regulador. Estaria precavido da entre-safra do comoditie e circunstanciais dificuldades financeiras... Abastecer a comunidade da "Babilônia suspensa"! - Queimava a mufa a matutar. O vulto do negócio assustava-lhe e considerou melhor fumar a planta das folhas à raiz.
Baseou-se em manuais de agricultura, matérias de várias revistas. Lera farta literatura, se considerava um expert no assunto, aliado aos anos todos de consumo - Será que já fumara um alqueire?
Depois de cuidadoso cultivo vicejaram escondidos no canteiro uns folhudos pés de marijuana. Planejava talvez fazer um bolo nutritivo. As informações extra-científicas colhidas davam parecer de que a "viagem" era garantida, ou um outro produto feito a partir de tão versátil vegetal.
Num sábado desses de folga aparece em casa o sogro, e repara no jardim um pé daqueles. Ele temeu que o velho reconhecesse a erva. Qual desculpa daria? Nascera por acaso ali, tanto tempo que não mexia com plantas...
- Que mato é esse aí!?
- ...! - De repente esquecera as palavras.
- Será um pé de Mastruz? Tá diferente... Grande! - E pôs-se a esfregar as folhas e cheirá-las.
- Coisa do adubo orgânico... Titica de galinha, merda de cavalo...
- Isso é mastruz!? - Inquiria o sogro tentando esclarecer sua ignorância botânica.
- É de outra qualidade.
- Não conhecia...
- Mastruz de índio.
- Anh!...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

NADSAT ==================

Em berço esplêndido
és mãe gentil,
mas relega teus filhos
à Pátria madrasta.
Garotos malvados,
vão quebrar vidraças
fazer molecagens
trepar por aí.
Cometer inconsequentes enganos
mostrar a língua qual sabem falar,
puro desacato desafeto.
Levando tanta porrada
já não sentirão dor...
São aberrações das tuas entranhas.



Mas descansem em paz,
Sossseguem vossa integridade
De adultos exemplares:
Responsabilidade de pai,
Inocência de mãe.
Envelhecer não requer idade...





Eis teu pródigo legítimo herdeiro -
Perdeu a graça o brinquedo sério.
Necessário é ser moço convicto,
Tomar na foto seu lugar devido
E abrir um largo sorriso.
Logo estará ele num Caminho Suave,
Viciado nesta sua droga de vida
Vai morrer de overdose.

CIDA ERA O NOME DELA =====

Numa cidade esquecida nos rincões deste país, uma mulher que enviuvara recentemente estava prestes a dar à luz. Embora, o fato de tornar-se mãe não a transformou como deveria.
Tempos depois que as gêmeas nasceram a mãe destas muito cansada dos afazeres resolveu adotar uma menina de rua como afilhada para ajudá-la nos serviços da casa. Cida era o nome dela.
Isso no começo, porque depois passou a obrigá-la fazer todas as tarefas sozinha. E quando Cida quebrava alguma xícara, ou não limpava o chão direito sofria os mais odiosos maltratos. Entre eles: apagar cigarros em sua pele, amarrá-la nua num quarto escuro.
As obrigações eram tantas que ela mal tinha tempo para se cuidar, por isso vivia de roupas puídas, os cabelos desgrenhados e não ia à escola como as "irmãs". Tinha os dedos furados pela agulha de tanto remendar as calças das gêmeas, as quais não davam a mínima pra ela.
Cida apesar dos pesares possuía um coração de ouro. Enquanto a megera perseguia os gatos que rondavam o muro, ela os alimentava às escondidas. Durante a dura faina cantarolava os sucessos das paradas pra espantar o cansaço.
Certa manhã em que mãe e filhas tomavam café souberam pelo rádio da realização do 'Grande Baile Anual de Máscaras', prestigiado pelas famílias bem sucedidas da sociedade. Um alvoroço irritante se instalou entre as gêmeas naquela semana. No seu íntimo Cida gostaria de participar, mas manteve-se quieta. A verdade é que ficou tentada, afinal não se divertia nunca.
Enfim chegou o dia tão esperado. Pela tarde as irmãs se preparam e fazem planos para a noite festiva. Tendo trabalhado a madrugada daquele dia em silêncio, Cida dava os últimos retoques na limpeza. Ao perceber as intenções da moça, a viúva tratou de impedir a filha adotiva:
- Cidaaa! - Esbravejou para em seguida indicar maquiavélica. - Faça-me o favor e dê brilho na minha baixela de prata, senão...
Desapontada a jovem deixou escapar baixinho um palavrão daqueles e às pressas lustrou toda peça de jantar com seu cuspo raivoso.
Escondida ela se aprontou para o baile. Ajeitou-se num velho vestido que guardara, penteou as longas tranças. Mas de tão exausta e hipnotizada pela sua imagem no espelho, adormeceu. Não faria mal algum cochilar até a hora de tomar o ônibus para a festa. Ficaria mais disposta...
O Casarão Municipal era deslumbrante e estava lindamente iluminado, fazendo reluzir as bijouterias nos pescoços das senhoras. Os pares pareciam flutuar enquanto dançavam, deslizantes pelos desenhos no mármore do piso.
Ágeis garçons equilibravam, entre os casais, bandejas de bengalinhas açucaradas, amontoados de croquetes, filas de gordos brigadeiros e taças de borbulhantes refrigerantes. Um lindo rapaz ofereceu-lhe sortidas maçanetas carameladas deliciosas. E sorria! Adorava... Maçanetas Carameladas!?
De repente despertou com o baque da porta... Dormira agarrada ao pé de sapato. Olhou o relógio, os ponteiros passavam um pouquinho da meia-noite. A família retornava da festa com grande alarido. As gêmeas suspirantes pelos rapazes, a viúva exausta de tanto dançar.