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segunda-feira, 6 de maio de 2013

NÓS =====================


                       Sofro se estamos apartados,
                       Nunca me falte tua pessoa.
                       É a ausência que me dá
                       A dimensão desta sua presença...

                          O roçar das nossas peles,
                          Conversa trêmula de desejos.
                          Seu cheiro, perfume espalhado,
                          Saboroso suor que escorre do teu torso.
                          A certificar-me duma lealdade
                          Que profere sua língua
                          E leio no teu corpo
                          Esta declaração de amor,
                          Que o beijo confessa na minha boca.

                       Usufruir como bem quero a plenitude
                       Sendo este o bem que me dá,
                       O mal que me faz.

CORREÇÃO MONETÁRIA ======


Trabalhando no banco tantos anos adquirira a confiança dos seus superiores. Se atinha rigorosamente aos procedimentos técnicos. Fazia valer as diminutas cláusulas dos contratos. Não poupavam-lhe elogios embora não subisse na carreira.
Abnegada dedicação merecia uma recompensa. Mudara de vida. Reformou a casa no bairro pobre, circulava majestoso em seu carro do ano.
Bem se sabe a inveja desponta o gosto pela maledicência, intrigas. Que sua ascenção era fruto de pequenas fraudes.
Um dia durante o expediente, o chefe deposita sobre o tampo da mesa uns papéis... Trocara num documento, R$ 170,00 por R$ 17,000 mil. Titubeou constrangido, mas não desalinhou o terno. Folgou o nó da gravata lilás perolada e fixou-se dificultosamente naquelas cifras.
- Devo ter me confundido com os números... - Justificou irônico mediante tal probabilidade, ou dezessete mil possibilidades. Perante si mesmo ninguém reconhece culpa de fato. Afinal, tinha suas plausíveis razões. Era uma fração mínima comparado ao que amealhava todos os dias os cofres da agência bancária.
Retirou então, algo da gaveta:
- Preciso usar óculos, aqui está a receita médica. - Esclareceu ele.

terça-feira, 2 de abril de 2013

RESCALDO ================

                                                         
                                                     Queima meu peito
                                                     sob as cinzas
                                                     dum amor
                                                     mal-apagado.
                                                     Cria brasa
                                                     e novamente se incendeia
                                                     no fogo da paixão.



TACIATÃ AVAETÉ ===========

No princípio eles mangavam:
- Tá enrolando a língua por quê, Índia?... Fala direito! - Querendo civilizar Capotira.
Foi num lítígio de terras brasilis sucedido. Os fazendeiros, o garimpo, as madeireiras vorazes tangeram a tribo de suas tabas. Índio não merecia terra nenhuma. O chão pisado primeiro, nem a sua Reserva, seja a emprestada pelo branco. Era sempre expulso.
Mocozou-se ali com os turis, entre as malocas trepadas na beira do rio. Cercada duma gentama branquelada filharada da mandioca, mais os filhos do carvão por acá largados.
Já nem faz artesanato, colares, chocalhos, cocares com as cores da jandaia. Vive de biscate, de vender sorvete e tapioca. Catar ferro, plástico pras indústrias de reciclagem. As duas cunhatãs desafloradas a servir no acostamento da BR as vontades de carne duns caminhoneiros.
Na palafita brincava o pyá, fruto do estupro sofrido dum Pastor. Seria este o paraíso cujo missionário lhe prometeu?... Outros tingas foram lá, estudar índio, querer ser nativo, pintar a cara. Mas índio não quer sociedade de branco.
Se das andanças matuta, repouso no giral, afastava a mosquitada a fumear cigarros Hollywood remeninando a aldeia.
- Antes não via carro que nem agora. Corria onça, tapir, jacaré, tracajá, tatu embrenhado mato dentro... Eita! Assim fucinhando carro noutro nas costas da avenida cobrejando feito sucurí. - Contava as cunhatãs sem muito da língua nativa.
Difícil de acostumar sossego. Também não se anda nu. O peró trouxe a moral e a vergonha, vestes, presentes, bons costumes, doenças venéreas... Entregue ao cauim pestilento das biroscas, a caninha Pitú toma conta, queima barraco, descamba sururu e morte, pois findou seu companheiro espetado numa "peixeira".
Sumiram os pipilos, piados, cuquiadas, roncos, esturros da bicharada. Bem além das taperas urbanas gritavam buzinas, guinchos de engrenagens, o ruidejar das máquinas. Nalgum lugar atacava Piaimã, gigante comedor de gente nos seus domínios, sem ligança pro deus caraíba pregado na tábua.
Restou-lhe da floresta, a selva de pedra. Ficava jururu que nem sapo cururu em lagoa seca. Se nem podia mais passar o dia na rede mastigando beiju. Era um tal caçar em vitrines, prateleiras, balcões... Quem dera apanhar a gostosura dos cajás, cajamangas, jaboticabas, genipapos, sapotis, pupunhas, um naco de gosto bom da vida.
Quando o sol escurenta, Tainaçã vagalumeia arriba do horizonte de prédios vinha um desgostar, o desejo amargoso de subir pro céu num cipó.
- Brasileiros somos nós. Esses aí, gente que veio de Portugal. - Queixava-se as cunhatãs bronqueada mode a brabeza caraíba.
    

sexta-feira, 1 de março de 2013

EXÉQUIAS =================






Amei-te,
Morres em mim.
Dum passamento
Qual não consigo
Lamentar.

Seja então,
Neste peito
Tua cova
De profundis.





DEU BURRO NA CABEÇA =====



Assim que chegou foi conferindo os números do Jogo do Bicho, calcados em giz na tábua de resultados afixada numa parede lateral do boteco. Naquela esperança de que a sorte desse jeito ao seu destino, incrédulo daquela maré de azar.
Procurava a combinação perfeita da Milhar na cabeça:
1º -  4411  [Cavalo]
2º -  8157  [Jacaré]
3º -  2496  [Veado]
... - Pelo sorteio da Federal.
Vivia tentando acertar na vida, pagar as dívidas, satisfazer ao menos uns desejos... Sem resultado.
- Jogo ingrato!... - Ruminou olhando o volante manuscrito. Só dava a banca. Jogara: 0235... - Deus não dá asa à cobra, mesmo!
Outras loterias e promoções acenavam com a felicidade instantânea. Tirar a sorte grande em um cupom especialmente premiado ou a tão sonhada  casa própria numa embalagem de extrato de tomate... Era preciso perseguir a sorte. Dera-se bem algumas vezes, pois o mundo é um perde e ganha desde Adão e Eva.
Criava toda uma matemática de coincidências cotidianas e somas favoráveis dos eventos. Vislumbre de números cabalísticos ocultando a chave do tesouro. Sonhos premonitórios com todo o Zoológico do Barão de Drummond em polvorosa... Sua vózinha era sensitiva, passou o dom para Ele. Certas pessoas querem enriquecer e realizar seus sonhos. Enquanto outras iguais a Ele, usavam os sonhos para ficar rico. Mas, dinheiro de jogo parecia amaldiçoado... Vendaval nas mãos. Não comprara nada de seu, nenhum chinelo.
- Porra, Bicheiro!? Tu é um pé-frio fudido... Tinha que dar teu parente Burro?
- Deu Cavalo, seco no grupo... Seo jumento! - Retrucou lá de canto, assistindo ao futebol.
- Um burro metido a besta, trabalha pros outros da mesma forma.
- Não sabe cercar o jogo, mané!... Você que é burro de nascença: 03 de Setembro, às 10 horas da manhã!! As outras dezenas não são coincidência, não... É registro em cartório!
- Devo ter uma cabeça de burro enterrada no quintal de casa, isso sim...
- Bicho que você vê no espelho, e não joga... Burro não ganha mesmo! - Despejou pela goela a cerveja.
Os números não lhe saíam da cabeça. Uma placa de carro batido, a senha da fila do Banco... Fazia fé, uma hora a sorte chega. Não seria pedir muito, mas só a sensação de vencer...

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

SUJEIÇÃO ================



Inoculado
Por um beijo
Habitas aqui dentro.

Esvaziei-me... Outro-me.
Meu Senhor,
Meu escravo.

Sujeitos...
Vivamos até onde
Nos permitam as amarras.
Realizemo-nos dependentes
Seviciados dia-à-dia por carícias,
Carrasco e vítima de nós mesmos...

Seja feita tua,
Minha vontade.


MEU QUERIDO TIO =========


A notícia circulou por todas as colunas sociais da Capital, nos "tijolinhos" de comentários tendenciosos. Afinal envolvia gente de bem da sociedade. Houve um colunista afetadíssimo citador de dizeres que pretendeu definir a empatia entre um Tio ranzinza e o Sobrinho dissimulado, com frase atribuída a Charles Dickens, "é melhor ser-se privado da luz do sol que olhar para o mundo com maldade." - À guisa de tirar ensinamentos das más condutas humanas, pelo que culminou acontecendo...
Morreu o Tio numa fatalidade negligente no hospital. Deixara em bens pouco mais de 6 milhões em apólices de seguro, imóveis por diversos bairros, uma polpuda conta-bancária, fortuna considerável para um reles agregado familiar... Porém, como vontade de testamento, tudo para um cachorro vira-lata mimado, o qual ele encontrara, noutros tempos, abandonado na calçada. O pobrezinho agonizava por culpa de donos desumanos. Agora entregue aos cuidados de uma Ong Protetora de Animais. Também para ajudar bichos menos afortunados. Enquanto o Sobrinho já previamente sabedor, uma ninharia.
- Um mísero apartamento de praia no Guarujá, no calçadão da Av. Marechal Deodoro da Fonseca... - Confidenciava aos íntimos, escandalizado. Mais do que um amigo, ele era membro da família.
Dadas as circunstâncias da morte anunciada instaurou a polícia inquérito respeitando à risca o rito advocatício, a fim de sossegar os rumores pela mídia.
- Evidentemente o Dr. Advogado lhe instruiu, é apenas uma praxe... De modo que o laudo pericial, médico, não contradiga as verdadeiras causas e possamos evidenciar os fatos. - Iniciou o Delegado num certo exagero de cordialidade, atraindo-o à confiança dele.
Portanto, deu seu álibi... Embora tenha ficado naquela madrugada no quarto, como noutras vezes, ausentara-se no período em que o Tio estertorou no chão do hospital.
- A enfermeira finalizou o turno ao ministrar os medicamentos ao paciente... Não foi isso?
- Instantes depois deixei o quarto, seguro de que meu tio estivesse bem... Ainda alcancei a enfermeira no corredor. - Parecia ser mais uma daquelas crises... Bons médicos, cortava-se um pedaço das vísceras, remédios, a prolongar sua soberba agonia... Fora fazer a toalete, insone espairecera numa sacada do prédio.
Apesar dessa solicitude, Sobrinho e Tio conviviam num cordato parentesco aparente. Um dos mais ricos da cidade, o homem de gosto sofisticado era de difícil trato. Dado à mesquinharias e futilidades nos relacionamentos cobrando lealdade a todo custo. Nem tão bem quisto assim pelo próximo. Dizia com escárnio não depender das pessoas, o dinheiro lhe compraria o que precisava. Vivia à mesa rodeado de convenientes aduladores.
O Sobrinho por seu lado, valia-se do prestígio financeiro do ricaço. Jogava em cassinos clandestinos, promovia orgias sexuais nos puteiros baratos, tapeava comerciantes vítimas de sociedades mal sucedidas.. Endividando-se com o crédito do Tio.
- Esse bicho herdou tudo o que um cachorro poderia sonhar... Não é do tipo de cão que se chutaria... - Mostrou o policial uma foto expressando a alegria canina. Lá estava aquele animal patético, coleira de luxo, figurino temático, sempre a melhor comida... De que carecia o cachorro aquela vida luxuosa?
- Por alguma razão seu tio despertou espasmódico caindo do leito, quando bateu a cabeça e teve complicações... Provavelmente à procura de socorro. - Suposto que sem o efeito da sedação acordou... A dor penetrante pelas entranhas. A impedir-lhe qualquer grito.
- Acaso, o senhor estivesse lá... Mas não poderia prever. - O Delegado agasta-o, faz ardilosas conjecturas, a obrigá-lo permanecer trancafiado dentro de si.
- Nada entendo de enfermagem... - Se bem que reparasse os procedimentos com o cateter de medicação.
- Não é possível precisar o desligamento ou interferência intencional dos aparelhos, pois ele derrubou alguns dos equipamentos.
- Eu não queria mesmo sujar as mãos com ele. - Lá no íntimo insondável remoía consigo a sentença:
"...Que pedisse ajuda ao cão!"
   

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

SEM PALAVRAS ============


            Por ser tão grande
            Meu amor
            Não tentarei explicar
            Sob o risco de vê-lo
            Diminuído
            Vazio
            Piegas.

            Mas quando perguntam
            A razão desta entrega
            O que direi?
            - Sabe... É único
              Assim... Fascinante.
              Como dizer... De perfeição
              Adorável!... Entende?



MEU PAR PERFEITO ========

Ambos se encaminhavam excitados para o encontro.
Ela, 29 anos, feminina, personalidade forte, frequentadora de chats sentimentais, esperançosa por achar o seu príncipe encantado Super-Herói.
Ele, taurino, meia-idade, divorciado, praticamente debutante à procura de alguém, arriscara-se certa madrugada num bate-papo dúbio em um desses serviços telefônicos de "disk-amizade".
O casal que trocara algumas confidências pelo correio-eletrônico esperava secretamente ver atendidas suas expectativas...
"Minha metade,
Falo sério... Procuro um relacionamento duradouro, de confiança. Na companhia de uma mulher interessante. Sei que é possível encontrar a pessoa que melhor combina comigo. Quero acordar pela manhã e poder ver o amor que sempre sonhei está do meu lado." - Escreveu ele no e-mail. Seu perfil dizia tanta coisa, totalmente preenchido.
"Sei ser gentil, mas muito sincera. Uma mulher bem decidida e cheia de atitude. Meu coração anseia pelo homem ideal, aquele que seja o verdadeiro amor." - Correspondia ela durante o romance on-line.
No lugar marcado, numa galeria do shopping, avistaram-se sinalizando com um cartão em formato de coração vermelho-apaixonado.
- Aposto, você não me reconheceu pela foto do site. - Ao vivo ela parecia um tanto diferente. - Cheguei faz uns quinze minutos... Pra observar. - Algo nele mantinha-o naquele estado de incerteza.
Discretamente passeavam seus olhares pela vestimenta de cada um, a pele, os olhos, o portar-se, a relacionar as informações contidas nos perfis.
- Então, você curte livros do Sidney Sheldon... - Demonstrou ele ser conhecedor de particularidades dela.
Simpática, ela quase gargalhou ao ouvir confirmada outras constatações pessoais que faziam deles exclusivos.
- Eu me achava um cara esquisito... Excêntrico! Por colecionar robôs de brinquedo.
Nem sempre relacionamentos vivem só de presumidas compatibilidades. Havia as insondáveis coisas íntimas. Em que o idealizado virtual confronta-se com as opiniões reais.
- E você gosta também de cozinhar... Deve fazer pratos especiais. - Pôs ênfase, como quem aprovava. - Alimentar os outros é uma dádiva dos deuses!
- Mas isso não faz de mim uma "Amélia". - Acentuou a frase o instinto feminino.
- Uma mulher que saiba cozinhar tempera o casamento.
- Por outro lado, Sr. "Dotes Culinários"... Nada me agrada homens que usam gravata borboleta... - Como a que ele estava usando. - Não me parecem empreendedores, firmes... Confiáveis!. - Ele considerou aquilo bem direto ao ponto. Isso o colocou na defensiva.
- É só uma primeira impressão sua...
- Não é a que fica?
- Quis parecer elegante... Me exprimi mal, ok.
- Ih!... Você é do tipo que não aguenta ouvir crítica. - Constatava decepcionada.
- ...Nos enganamos certamente. - Nem terminou o jantar romântico.
O anúncio do site ainda propagandeava animado, "um relacionamento sério te espera"... Ah, o amor! Felicidade que nos escapa. Tudo começa bem, mas acaba indo mal.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

TRÁGICO FRACASSO ========


Veja o que faz de mim...
Triste
Abjeto
Culpado
Mórbido
Rancoroso
Ridículo
Sinistro
Fútil
Moribundo
Vivente do próprio inferno
Degredado do paraíso que te fiz.



CHIFRE NA PRÓPRIA CARNE =====



A consciência dele pesava tanto que resolveu desabafar:
- Minha mulher me traiu... Sou corno! Galhudo!! - Com isso aliviava a dor pungente.
- Com outro? - Perguntei. Ao que assentiu com pesar a cabeça. - ...Menos pior. - Manteve-se cabisbaixo, talvez temesse as repetidas vezes, "onde passa boi, passa boiada..."
Ele que ostentava pose de machão, agora choraminga ferido. Pois se considerava uma espécie de "macho-alfa", porém mansamente dominado pela fêmea-alfa de quem se tornara um bezerrinho.
Tamanha preocupação era inútil. O boi-alfa também é corno, não está nem aí e morre de amores pela vaca... E sequer está em extinção, ou inexiste como o Unicórnio.
- Isso acontece... Agora pode dormir folgado na cama. - Tentei remediar sem muita habilidade no assunto. Com quais palavras consolar sem parecer dizer, "não pense tanto porque você pode ficar careca de saber."
Confissões assim são duma constrangedora intimidade. Não que eu só seja solidário nas mórbidas tragédias cotidianas! Nem sou do tipo que vê na tragédia dos outros a nossa consolação. Tanto mais tratando-se dele, já havia adulterado o sétimo mandamento não sei quantas vezes. Nunca sentira o chifre na própria carne... Claro, guardei discreto segredo.
  

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

MÁXIMA POÉTICA ==========









Haver
Ou ter?
Porquanto
Haverá
Terás
A pedra
No
Caminho.




ATRÁS DAS GRADES ========

O que aquele detento contava decerto inspirasse desconfiança. Assunto retomado nas suas visitas naqueles dias à enfermaria. Numa espécie de testemunho desculpável da sua condição.
Corpulento, marcado de cicatrizes, tinha por volta de 37 anos... Falou um tanto da infância roubada.
- Lá no barraco faltava de tudo. Cama, feijão, pai... Minha coroa dava um trampo danado. Mas, dinheiro de pobre não rende. Caí pra rua. Sem ninguém por nós, a falta de freio... Já viu, né! A cadeia foi meu berçário, minha escola, e de alguns irmãos... Sério! - Assim ouvia-o ao sabor da consulta. O resolver por si mesmo, com a cara e a coragem pra vencer na vida, conforme ele mesmo disse.
- A pior privação é a fome... Eu comi o pão que o diabo amassou, que é a hóstia dos desesperados. Deus escrevia em linhas tortas pelos becos da favela pra gente endireitar... Aí, os caminhos se fecharam. - Alegou como um trágico destino do qual não pudesse escapar. - Quem nada tem, não tem nada a perder. Me meti em assaltos... Troquei tiros. Dei um bocado de trabalho!... A gente não percebe o momento que a coisa descamba.
Enquanto ele mencionava parte das desventuras da infância, eu me perguntei onde se perdeu aquela criança que chorava implorando pelo colo da mãe. O riso puro da inocência encoberta pelas maldades. Era a necessidade que o desvirtuava de anjo à categoria de demônio.
- ...Acho que passei mais tempo trancado do que solto. Queria dar a grande cartada pra me arrumar. Só causas perdidas... Eu seguia nessa contradição. Hora deus me abandonava quando perdia, estava comigo se vencia no crime. Salário de ladrão é o roubo. Poucos largam essa vida, parece maldição... - Dizia como a espera de um veredito favorável possivelmente, a motivar seu ímpeto de recuperação penal.
Embora, vez ou outra, meus contundentes questionamentos reforçassem a culpa, suas justificativas tinham o apelo dos arrependidos.
- ...Cadeia nunca foi hotel, mas sobra tempo pra matutar... Pro bem ou mal. Isso deixa um homem louco. É pendurado nas janelas do presídio que eu vejo a vida lá fora. Aqui nos isolam pelo que tanto temem, a solidão. E nos encarceram em meio ao tormento... Santo de tudo não fui! Se sou bandido, também o mundo me fez assim. Não foi a placenta da minha mãe e o pênis do meu pai. - Isto numa revolta contida, e depois silenciou ensimesmado.
Vindo dele quanto poderíamos confiar? Vê-lo com outros olhos e oferecer-lhe a benevolência do perdão... Mostrou-se satisfeito quando informei estar curado da virose.
- Sei o que pensam de nós... Para alguns, eu nem mereço esse remédio... Bastava apodrecer. - Provavelmente repetia sempre convicto seu álibi desacreditado. Afinal das contas o que valia era a pancada seca do martelo do juiz, o ranger do ferrolho da cela... A justiça feita.
   

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

POEMA CRUEL ==============



        Vou...
        Não é justo
        me prenderes
        ao teu querer.
        Queres me amar
        de um modo
        que não quero sê-lo.

        Foste sequer
        razão do meu viver,
        incapaz de encantar-me.
        Posso passar
        sem você,
        não temo
        ficar só.



SOUVENIR ================

São 5 horas da tarde. Chove um pouco agora... Não tem feito sol ultimamente. O carteiro não entregou nada aqui hoje, nem mesmo telefonemas temos recebido. Esses latidos frenéticos que você tá ouvindo, é o cachorro do vizinho em frente. Estão voltando às pressas do passeio... Ele não é de se meter na vida alheia.
Por trás destas portas, entre quatro paredes, quem suspeitará do inevitável destino que nos une?... Você há de considerar meu desespero. Me perdoe a extravagância. Só quis perpetuar nosso relacionamento.
Não lhe dizia, a taxidermia consegue milagres... Realismo fabuloso! Vi uma onça empalhada num museu, ela parecia rugir... Você está com uma ótima aparência. Posso sentir pelo toque.
...Deu trabalho despistar a polícia, afastar os parentes preocupados. Dizem que depois do seu repentino sumiço, eu me isolei ferido de amor... Embora você parecesse cada vez mais distante, eu quero tê-la perto de mim.
Vilda, minha terna Vilda... Meu tesouro raro! Troféu da minha conquista. Você foi feita pra mim, querida. E por todo sacrifício posso apenas compensá-la com um presente especial... Não é maravilhoso este anel de noivado? Gosta?... Deixe-me colocá-lo no seu dedo... Perfeito!!
...Tudo que sempre desejei foi dividir meus momentos contigo, participar da sua vida. Jamais suportaria ficar sem você. Eu lhe dei o melhor de mim, Vilda. Ninguém há de lhe amar como eu amo...
Acredite, farei da nossa casa um lar agradável. Posso ler romances pra você, Vilda. Cuidarei das tuas plantas... Retocar tua maquiagem. Terei o privilégio de ajeitar a alça do vestido que escorrega pelo teu ombro, deixando descoberto tuas formas conservadas. E tomarei prontamente teu beijo embebido em formol... Nada lhe fará querer estar lá fora, ausente de mim... Nunca deixarei sentir-se sozinha, nem a terra fria vai lhe abraçar... O que importa é estarmos juntos, se tenho teu coração...
Prometo, o ciúme nunca mais vai atrapalhar nossa relação. Tá... Não me controlo. Sou possessivo com o que é meu, você sabe... Todos temos nossos defeitos. Alguém tem que decidir... Confessa, você vivia na dúvida. Então precisava de um argumento convincente. Não sendo de outro, seria minha.
Tive medo do abandono, não ser querido, sem ter outra metade... O amor nos faz cometer loucuras!
Deixemos disso, devo tê-la chateado... Acho que está na hora de preparar nosso jantar.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

EXPIAÇÃO ================


Criou-te
Astaroth
para que
morre-se
fervoroso devoto
em teus braços,
Adorável Sacerdotisa.
Iniciou-te
Ishtar
flagelar-me
com penitente
lascívia
de teus
carinhos.
Sim,
sou teu
holocausto.


TIGRESA LIBERAL, procura... =====

...O cliente se foi finalmente. Não estava mais a fim de companhia. Caso o telefone tocasse jurou não atender, inclusive desconectara a internet. Amanda andava cansada daquela vida de garota de programa. Seu corpo anseia por um banho, cremes, descanso... Pretendia largar tudo, insistia consigo mesma. Mas, tentava sem muita convicção convencer-se a mudar de ramo. Vida doméstica, ter um namorado sem assustá-lo com a sua profissão ou mentir à família.
Reconfortante a ducha fazia escorrer uma cascata morna de espuma precipitada de sua púbis... Temia contudo, Amanda, as pedradas da opinião alheia. Mudaria ela, e os outros? Desconfiava se a sociedade que cospe, é a mesma que quer lamber...
Aprendera utilizar o poder de uma buceta, provedora de tão convincentes conquistas. Comprara carro, pagava contas, diferente do que se ficasse à míngua na cidadezinha natal, vendo definhar num fundo de panela seus encantos. Cedo teria engravidado dum qualquer, presa a vontade do marido... Custeara a passagem pra Capital com a virgindade, sendo um certo vereador daquelas bandas o feliz cambista.
Os primeiros passos foram em boates e pegou rápido o tino comercial do negócio. Desde quando nascera o mundo lhe cobrara um preço. Quem falou que deus dá a vida? Ela é emprestada! Todos pagam a fatura, têm lucros... Sexo requer habilidade, a tabela de serviços oferecida nos classificados contemplava massagem, sexo oral, anal, kama-sutra, menáges, dupla penetração, sadismo, acessórios, fetiches, totalmente privê...
Não envergonhava-se da vida que levava, conversa de Delegado, moralismo de dona-de-casa, não garantia o sustento dos pais. O que seria deles sem o dinheiro que ela enviava? Suor do expediente na fábrica...
Findo o banho secou-se, fez da toalha um turbante e vestiu seu robe. Acendeu a metade deixada de um cigarro de cannabis, longas baforadas inundavam o quarto num fog translúcido coado pela luz do abajur... Seus dedos cavam no pote um creme que Amanda aplica à pele. As mãos asseguravam a rigidez da carne. Aquele corpo exausto a única coisa de valor que possuía. Carreira de prostituta era igual a de jogador de futebol... Bola pra dentro! Enquanto correm atrás de você, tá bom. Era aproveitar o auge da fama.
Sua universidade fora a vida, mas bem que merecia receber o diploma em psicologia, papel mais exercido atualmente. Convencera-se serem os homens uns inseguros, achando que serão sempre os prediletos da mamãe. Por aquela cama passavam estórias inusitadas, de quem menos se desconfia... Aqueles homens emergiam pelas dobras dos lençóis.
Vinha-lhe certo conhecido empresário, cuja mulher após acidente de automóvel vivia paraplégica numa cadeira de rodas. Apesar de contrafeito mantinha o casamento para não perder o direito à fortuna.
Às quartas-feiras, um excêntrico que só ia lá vestir suas peças íntimas e ser enrabado por um consolo negróide tamanho G, de 5 polegadas.
Houve um tipo que puxou conversa esquecendo o que viera fazer ali...
Queixas pelo relacionamento que levavam, compromissados com as mulheres ditas "direitas". Percebia haver um certo cinismo, como que para melhor ser atendido em suas carências. A maioria deles pensava que ela estava ali para ser confidente. Não os queria mal, só não conseguia sentir pena. Que mais poderiam pedir em troca?...
Ah, como ela preferia que fosse à moda antiga. Um martini, aquela pegação básica duma mão invasora por baixo da pouca roupa, o acerto de contas. O fulano chegasse e se aliviasse, as vezes dependendo do tipo até gozava durante a encenação.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

FERIR-SE ================

                   
                            Ela chinga                  Ironiza - Ele.
                            Bate as portas            Faz pouco caso,
                            Lhe deseja mal.         Desvia o olhar.

Não são mais
Os mesmos
De antes...
Solidões conjugadas.
Ressentem-se.
Tanta gente por aí, justo...

                                         Por trás desse
                                         Palavrório agourento
                                         Modo de falar a sério,
                                         Medo de ouvir
                                         Sem artifícios
                                         A fatídica verdade.



POLÍTICO DE TALENTO =====

Quando um político é um ruim, seus cabos eleitorais procuram acentuar-lhes as qualidades artísticas. Há inúmeros casos e a História prova.
Pianistas, cantores, violeiros diversos, escritores etc figuram neste parnaso político.
- Mas, é um corrupto! - Contradigo eles.
- Tem gosto para a música... Toca piano.
- Sim, não nego.
- É também um homem de visão empreendedora. - Continua o outro, querendo me convencer.
- Cego para os preceitos éticos...
- De muito tato político.
- Para pôr a mão no bolso alheio.
- Compõe como ninguém! - Insiste.
- Sei... Haja visto a ladainha justificando as dificuldades e a falta de verba. Pra esconder o cinismo das prevaricações, fraudes. - Lógico, ele não se convence.

Faço minhas as palavras de Diderot, tamanha sensibilidade musical deve-se ao fato de viver entre bons músicos e má gente, daí ter ouvido afinado e coração surdo!
E acrescentando ao comentário do mesmo, eu diria:
- Fácil é aprender um instrumento qualquer. Tocar um governo a contento é que é o prodígio.