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domingo, 18 de abril de 2021

O 'HOMEM DE DEZ MIL ANOS' # 2

Certa ocasião o 'Homem de Dez Mil Anos' aportou numa pequena cidade. Nesse dia disputava-se um clássico de futebol entre a agremiação local e o time da cidade vizinha. Para o campo acorriam centenas de torcedores com suas bandeiras, instrumentos de algazarra pra sustentar o coro da arquibancada.
Chegando ao estádio sentou num espaço que separava as duas torcidas rivais, onde se xingavam mutuamente antes do jogo começar. Ao adentrarem o gramado os times foram recebidos pelo fumacê nas cores dos clubes, muitos gritos de guerra e espocar de rojões. Depois do "cara ou coroa", o árbitro deu início à partida...
Corre pra lá, corre pra cá. Algumas botinadas, mais ofensivo o esquema tático do rival encaixou... Aos quinze minutos do primeiro-tempo o escrete visitante abriu o placar. A torcida adversária foi à loucura. Empolgado com o golaço que fizera o craque meia-esquerda, ao driblar o zagueiro daí chutar pro  fundo da rede, o 'Homem de Dez Mil Anos' sacudiu pra valer na arquibancada... Nisso o adversário armou a retranca passando a se defender, à espera do contra-ataque. Obrigando seu goleiro fazer grandes defesas.
No intervalo, os jogadores ameaçaram sair aos tapas. Aqueles torcedores que não foram mijar, tiravam sarro uns dos outros, cantorias, provocações diversas. Embora tenso, aquilo estava aquém das manifestações que vira entre os chineses, 2.500 anos antes de Cristo, quando os soldados se divertiam num jogo animado chutando o crânio de seus inimigos decapitados. Ou como assistira épocas atrás durante jornada à Civilização Maia, em que dividiam dois coletivos, os quais deveriam acertar com uma bola a meta na forma de aro. Sendo esta disputa tão ferrenha, que o líder do time perdedor era punido com a morte... Então recuperadas nos vestiários, as equipes retornaram e deu-se  continuidade à peleja...
O clube anfitrião voltou melhor pro segundo-tempo. Uma torcedora nervosa roía as unhas, tanto quanto berrava o nome do ídolo querido. Os  dois técnicos à beira do gramado davam orientações táticas gesticulando, além de perturbar o Bandeirinha quando das marcações. Logo aos cinco minutos uma bola na trave adversária acendeu a equipe da casa. E após muita pressão junto à grande área, perto dos vinte e três da etapa complementar, batendo falta precisa na forquilha (lá onde a coruja dorme), o Lateral-direito empatou o dérbi interiorano. Tomado pela emoção o andarilho milenar vibrou com o gol. Tanto tempo sem ir ao estádio, ele esquecera quanto surpreendente poderia ser uma partida de futebol... Alguns torcedores, de ambos os lados, estranharam tal atitude infiel. O camarada devia estar maluco! Que camisa veste, qual time torce?
Alguns impedimentos, o "Uh!" de frustração dos torcedores pelo quase gol, lances perdidos pra virar a partida, chutes pela linha de fundo... E o jogo terminou empatado. Radiante o 'Homem de Dez Mil Anos' comemorava. Um torcedor não se conteve, exigiu explicações. Aquilo era "virar casaca" demais, sendo que ninguém ganhara.
- Como não! - Respondeu ele. - Fico feliz porque não havendo vencedor, nem vencido podemos todos festejar duplamente.

HORROR NA PEQUENA VILA =====

Desde as primeiras horas da manhã, um vento incessante que esquiva invisível entre os prédios adentrava a pequena vila residencial, varrendo as calçadas sem sapatos, o calçamento de pedras das ruas. Agitava-se, espargia umas folhas mortas de árvores, corria rasteiro e rodopiava em redemoinhos numa esquina. Plaquetas de comércio dependuradas rangiam sacudidas pelo vento... Embora a luz do sol dourasse os paralelepípedos, o calor se dissipava soprado pela ventarola. Casas de janelas cerradas, outras o agitar de cortinas. Varais e suas peças de roupas dependuradas, feito partes de corpos balançantes em sacadas. Só a presença do envolto ar movediço...
O seu penteado não resistira aquela agitação toda. Iria apresentar-se às pessoas como um espantalho. Vivia ao tempero dos hormônios. Seus seios oprimidos pelo sutiã sob a camisa social de mangas arregaçadas. As ancas justas dentro da calça. Não que fosse feia propriamente, pouco despertasse o interesse verdadeiro dos homens. As faces róseas salpicadas de sardas graciosas.
A semana praticamente passara e fizera poucas vendas, pretendia melhorar a comissão. Ler educa reconheciam alguns clientes endinheirados, mas não tinham apego. Quando muito queriam o espaço vago da estante preenchido. Não era especialista em livros, vendia aqueles demonstrados no catálogo da editora. Nem poderia se considerar uma leitora, aceitou o trabalho dada a necessidade. Gostava de folhear revistas de fofocas sobre famosos, idílicos romances de Bárbara Cartland antes de dormir...
Duma janela alguém a viu parar à beira da sarjeta. Mirou o quarteirão avaliando as residências. Qual favorece-lhe fazer dinheiro? Motivar o otimismo de dias melhores... Diante dela em tons claros de marrons um chalé, ajardinado à frente tinha a fonte do chafariz seca. Um anão de jardim sorria, o sapo de pedra aguardava a água. À direita da mureta provida ao longo do quintal de ornamentos em ferro, o portão da garagem cujo vitrô na lateral deixava ver um Corcel azul metálico estacionado. O férreo portão estilizado não oferecia resistência maior... Nenhum cão de guarda surpreso apareceu latindo. Bastava seguir o caminho de lajotões avermelhados até a porta de entrada, sob um alpendre longitudinal que servia para receber visitas... Tomou fôlego. Não descarte a oportunidade! Cada porta reserva-lhe uma surpresa. Pressionou o botão da campainha ding-dong, logo abaixo do número 696... Parecia demorar... Ninguém em casa. Devia tocar de novo?... Um indivíduo abriu a portinhola diminuta deixando-se notar. Então informou ser vendedora de livros. Talvez não tivesse interesse no momento, muitas contas a pagar, resmungou a voz.
- Veja... - Insistiu abrindo o catálogo. - Temos coleções ótimas. Nós também dividimos em parcelas o pagamento.
O homem saiu um pouco. Tinha média estatura, aparentava meia-idade e mantinha o porte físico. Ela mostrou uma credencial com seu nome, emendou falar da qualidade das edições. Mas o vento ainda insistia inconveniente importunar as coisas... Dissera um nome, mas este escapou-lhe aos ouvidos. Não tinha feições rudes por trás dos emoldurados óculos pretos, respondia com voz branda, gestos comedidos. Sugeriu que entrassem para melhor conversar...
- Tenho mesmo uma biblioteca básica aqui, com coisas de meu interesse. - Apontou uma coleção de livros suspensa na parede. Observadora pôde notar duas enciclopédias de cores distintas, grossos tomos, livros de capa dura esverdeados, em tons de vinho, sobre anatomia, exoterismo, medicina, trabalhos manuais,  perfilados e sobrepostos, títulos em letras douradas, com autores que ela desconhecia. Leu de relance: Sêneca, Marquês de Sade (decerto conta algo sobre a nobreza), Crowley. - ...Inclusive esta indispensável Bíblia Sagrada. - A qual o homem reverenciou com gesto respeitoso apertando contra o peito. - ...Tive uma severa criação religiosa de minha mãe, entende. Eu mal podia brincar do lado de fora. Venha... - Convidou-a sentar-se no sofá, entre ambos um móvel de centro, onde colocou a sacola que trazia a tiracolo com o mostruário de algumas coleções. A princípio ficou receosa entrara sozinha na casa de um desconhecido. Reparou dependurados num mancebo, bolsa e chapéu feminino.
- O senhor tem esposa?...
- Você perguntou por causa dos acessórios de mulher ali... São de minha irmã. Daqui a pouco ela chega.
- Talvez eu pudesse indicar nosso livro de receitas culinárias ou jardinagem.
- Fique tranquila, já recebi outras vezes revendedoras de cosméticos, vendedores de planos de seguros, enfim... - Uma janela batia incomodamente. - Se importa deu fechá-la? - A moça assentiu. - O dia está bastante incomum...
- Creio que nossa coleção de Mestres da Pintura vai agradar o senhor. As reproduções estão perfeitas, o tipo de papel especial, formato horizontal da edição... - Estendeu-lhe o livro. Fez assim sua primeira cartada para a venda.
Examinou com cuidado a capa firme. Deteve-se ante o frontispício luxuosamente ornamentado.
- Aceita beber algo? - Perguntou de repente.
- Não sei...
- Você está com pressa?...
- Escolha à vontade, por favor.
- Vou trazer suco para nós dois. - Saiu. Olhou ela em volta o ambiente. Calmaria estranha. Não estava sujo, impressiona o aspecto lúgubre da casa, como se vivesse nas sombras. Não quis parecer indelicada e recusar a bebida, ouvira histórias escabrosas. Sentiu-se arrependida em aceitar... Da cozinha o indivíduo procura manter certa interlocução. Voltou a citar a irmã pela demora, acompanhado dos sons de armário sendo aberto, porta de geladeira, puxar de gavetas, vidro retinindo de copos e jarra. Enquanto encetava conversa, algo dentro dele conspira. Mais fácil que atrair prostitutas, era um passarinho distraído que caía numa arapuca, não convinha assustá-la... Embora pudesse deixá-la ir antes que desconfie... Ou quem sabe ter uma namorada. Trocar confidências, que essa fosse mais compreensiva. Mulheres eram o seu problema!... Fez parecer tudo muito natural. Sorrateiro pegou um frasco diminuto escondido numa gaveta, esguichou uma solução de sonífero no copo que seria dela. Preferia atordoar a vítima a dar-lhe um murro para desmaiar. Arrumou a bandeja e retornou à sala.
- Aqui está!... Nem demorei. Trouxe o açucareiro para você mesma adoçar o seu. - Daí primeiro colherou açúcar para si e bebeu. Ansiosa logo o acompanharia com goles esparsos, um tanto a contra-gosto dissimulado.
- Pode ver, são comentadas por especialistas...
O livro apoiado assim nos joelhos folheava as reproduções de pinturas famosas: Hugo van der Goes, Caravaggio, Hieronymus Bosch, cenários delirantes em sua imaginação. Um ser cruel dentro dele escondia-se: "Ela tem que morrer!", algo insistia nele. Levantou os olhos das figuras em direção à vendedora irrequieta.
- Bem,  agora só falam que a computação vai permitir armazenar livros inteiros para consulta. Nisso que chamam de web, quadros  em imagens virtuais... Sabe, eu trabalho na limpeza pública. Já fui coletor, agora dirijo o caminhão do lixo. Não recebo muito... Daqui algumas horas inicia meu turno... Você está sentindo alguma coisa?
Ainda que forçasse a atenção, não conseguia permanecer desperta. A cada piscada de olhos mergulhava num sono irresistível. Ergueu-se e intentou dois passos cambaleantes...
- Oh, meu Deus!... - Enregelou-se o corpo até o sono profundo.
- Eu cuido de você.
Ao recobrar os sentidos descerrou as pálpebras pesadas. Achou ocorrer outras vezes. Como se visse em flashes de imagens distorcidas. Havia gritos incompreensíveis. Aquele vulto obsessor. Pareceu que sonhara com o estranho voraz a possuí-la... (!?) Quis se levantar, mas dada a dificuldade percebeu ter sido presa sobre uma bancada. Um conjunto de algemas num dos pulsos e tornozelo, as palmas das mãos atada com grudenta fita adesiva... Estava fraca. Tinha a boca ferida duma mordaça. Reparou estar despida, o corpo coberto de hematomas, lanhos de chicote, a pélvis dolorida... Constatou tendo o olhar aterrorizado, as partes íntimas pegajosas de sêmen e sangue. Derribado no tampo um rijo strap-on, junto duma taça de drink... Soltou um grito sufocado e esperneou a atingir os odiados objetos que caíram ao chão.
- ...Seja bem comportada, entendeu! - Retornou apressado ao porão. Olhava-o espantada vestido num robe. Oprimiu-a com um tapa e injetou entre a boca cerrada a solução sonífera numa seringa, obrigando engolir. Vencida não conseguia forças, sem manter a consciência.
Abaixo da bancada havia um bojudo frasco cheio de sangue, pois a moça já doara milagrosos dois litros, com o qual preparava estonteantes bloody maries. Dispunha desses apetrechos medonhos aprendidos, alguns feitos a partir dos livros.
Não imobilizava sua vítima totalmente sentia prazer em observá-la resistir, dominar sua contrariedade, as súplicas chorosas, o grito de dor parado no ar que logo desaba. Permitia-lhe movimentá-la, tanto como usurpar o corpo. Despiu a vestimenta e bebia o drink pronto. Tocou-a alisando rude a carne doída, que ainda reagiu com repugnância. Apreciava o cheiro da pele, seu calor latente, o sabor da transpiração, o tremor dos músculos tesos, experimentar sua consistência à mordidas.
- Você quer que eu faça seus gostos... - Repetia delirante entorpecido pela sonoridade dos gemidos aviltados, a canibalizar aquelas tetas desejáveis, mastigar o tufo relvado dos pêlos pubianos. Abriu-lhe a vulva movimentando a sebosa língua serpentina, sorveu guloso a escancarar os sanguinolentos lábios vaginais. Aparta abrindo as coxas como querer entrar de volta ao útero.
Seu pinto cresceu o mais que podia, não era assim tão bem dotado, os testículos dependurados no escroto flácido. Queria entrar dentro por todos os orifícios atingindo sua alma. Trepou na bancada de sevícias, apavorada fez encolher-se soluçante, o tampo tingido do mosaico de nódoas, insistiu se debater débil. Puxou-a decidido por trás, que esboçava alguma reação, o rosto colado à superfície nojenta. Afasta as carnudas nádegas e penetra-lhe firme no ânus róseo, nisso estocava sadicamente a firme virilha.
- É grande o suficiente, hein!... - O corpo da vítima inerte recebia as ondas de choque, o estalar da bunda, subjugando às rédeas de seus cabelos, que sacudia-lhe o torso, o seio penso. Isso apressava a respiração dele, os batimentos cardiácos, emitia uivos guturais... Então explode numa ejaculação intensa de esperma misturado às fezes.
...Insistentes batidas na face fizeram-na despertar assustadiça, o corpo débil. Bruto batia-lhe no rosto empunhando o avantajado strap-on. Embebeu-o no cálice de bloody mary, esfregava em sua boca violácea, agora sem mordaça, cutucando os mamilos arroxeados, a ameaçar o ventre dela. Por trás dele assombrou-lhe um manequim trajado num velho vestido e tinha um crânio humano fixado ao pescoço.
- Conheça a minha mãe... - Ficara com a cabeça descarnada pelos vermes após a exumação. - Hoje acordou indisposta... Repete os mesmos insultos... A senhora fala demais! Qualquer dia desses, eu a deixo sozinha... - A Retrucar um suposto diálogo mórbido entre o títere da matriarca falecida. - Você é minha mãe, sabia?... Eu saí dessa buceta!
Duma caixola com manivela, aprisilhou nos bicos dos seios machucados, dois fios elétricos. A cada girada do mecanismo, o corpo se contorcia em espasmos repetidas vezes, até que a uretra expelisse a urina quente, ao que bebeu regozijante. Tomou do enorme caralho artificial e introduziu abruptamente naquela vagina eriçada de pêlos.
- Este te faz gozar, vadia?... - Metendo e tirando com violência.
...O corpo inerme entrara em colapso. Num período intermitente extraíra quase quatro litros de precioso sangue. A vítima tinha as carnes frias. Quase cirurgicamente com um afiadíssimo cutelo decepou-lhe a cabeça, detendo o estrebuchar do corpo em choque. Desfez a mordaça, e entre os lábios lúbricos de sangue, o olhar da jovem num último reflexo de espanto, enfiou o pênis duro goela abaixo, enquanto segurava os cabelos desgrenhados, forçando o sexo oral...
Sem que se percebesse tudo aquietou alheio à providência divina. Oportunidade usada para esquartejar o cadáver, enterrar membros e outros pedaços, oferecer as vísceras aos caymans famintos num rio lodoso atrás do cemitério da cidade. Agora tudo parecia sóbrio ao se avistar o casario debaixo do céu... Ficaria um filho órfão à espera infindável numa creche. A vida naquela expectativa de que algo acontecesse.   

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

URBANOS GIRASSÓIS ========


                      Uns girassóis no canteiro da avenida
                     Incongruentes dourados na paisagem urbana,
                     Semeadura de beleza em meio às pedras.
                     Tuas pétalas tingidas de poluição,
                     Exalas inconcreto perfume...
                     Ramalhete de um amor impossível.
                     Ao sabor da aragem dos automóveis velozes,
                     Sob a chuva melancólica desses dias.

                     Emolduram a miséria dos desvalidos
                     Viventes do lixo.
                     Logo ali, uma velha que acompanha sua solidão.
                     À meia-noite outra ronda desconfiada dos policiais,
                     A fina flor dos malandros, herdeiros pixotes
                     Habitantes das sombras.
                     Na esquina despetalar-se a dama da noite,
                     Tudo em vão...

                     Urbanos girassóis a enfeitar
                     A fealdade do mundo. 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

ALGEMAS DE AMOR ==========

Ocorreu que um casal de ladrões foi pego furtando num desses magazines populares. De olho, o circuito de câmeras "dedo-duro" flagrou o delito a dois. 
A ladrona era bem esbelta, mas ganhara tronco e bunda vestindo algumas blusas, mais calcinhas, umas sobre as outras em disfarçadas idas e vindas ao trocador. Obstinada frente dum espelho com o jeito do cabelo em parafusos, tingido de loiro artificial. Enquanto o meliante mancomunado, entre distinto e gatuno, dava cobertura vigiando as vendedoras da loja, também exibia a morenice de seu charme...
Presos às algemas, ambos se acusavam na ante-sala da delegacia, a purgar as culpas um do outro. Brigaram diante da autoridade policial, durante o interrogatório no qual se fazia a acareação.
- Pera lá!... Então vocês são casados? - Inquiriu o Delegado de plantão, bigode espesso rigorosamente aparado. Camisa de compridas mangas abotoadas, uma séria gravata monocromática azul-anil, ostentando grossa aliança de casamento.
- Amasiado, Doutô... Nem tem cinco anos ainda.
- ...Quem casa devia honrar as calças que veste.
Tinha mais, havia denúncia do modo operandis da dupla de amantes larápios. Seduziam jovens solteiros, descasados em busca de aventura, incautos aposentados e depois assaltavam.
- A moça que é a Cinderela? Ou seria manequim de passarela? - Estendeu-lhe as provas já despidas.
- Eu... Imagina, Senhor... - E riu. A amarfanhar o cabelo aparafusado.
- Marluze Inocêncio Nobre. - Soletra o "Delega". Um velhote dera queixa quando depenado num hotel decadente, lá no centro da cidade. Todos bêbados, quem conseguiria provar o golpe... Porém, neste deram mancada.
- Ela falô que tava precisando dumas calcinhas, saia, blusa... Né, chefia.
- Mulher tem necessidade, meu filho!
- Jesus Cristo é testemunha... Eu disse, vamô fazê o crediário certinho...
- Com teu dinheiro, Vandelton?... Cafetão de puta pobre!
- Tu tá me confundindo, cachorra?... Fecha essa matraca.
- Dou nome aos bois, sim.
- Fica me entregando... Bandido não tem nome, é apelido. - Retrucou o tal. Logo o Doutor apontaria cada caput. Assinara um artigo 35 do código penal, por associação ao tráfico. Seguido do artigo 171, acusado de estelionato. Mais outro artigo 155, devido a furto de veículo. 
- Senhor, esse aí é só falsidade!... - Marluze por um instante esboçou chorar. O peito ferido de amor matado. Alma gêmea apunhalada... A paixão incendiou seus corações numa quermesse na comunidade. Dali dois anos sem cerimônia, panos juntados. Enlace interrompido da vez que ele puxa uma cana-dura... Esqueceram facilmente as pipadas de crack, os goles de vinho batizado, ouvindo cd com canções do Fábio Jr., prazeres no cafofo de madeira à margem dos trilhos da ferrovia, naquela vida sem rumo. Tonta, fizera desabar um barraco da amante piriguete dada sua paixão incondicional...
- ...Eu tava lá a contra gosto.
- Jura!... Contra gosto sou eu abrir as pernas pra tu... Baita mixaria!
- Epa!... Isso aqui não é a vara da família, hein. Presta atenção, cacete! - Interveio a autoridade presente, largando o café puro que bebia.
- Mentiroso!... - Quis acertá-lo.
- Vai revelá desse jeito nossas intimidades?... As celas tem escuta - Disse diminuído no seu ego. - Ô, camarada... Não escreve isso aí, não! - Suplicou ao escrivão discreto num canto do gabinete.
Tudo porque, acredite (nas entrelinhas), ela era réu primário, aliás safava-se em toda fita deles. Assim, o vagabundo não queria ver alongada a "capivara" de crimes.
- Doutô, essa mulher... - Esforçou-se para achar a palavra furtiva. - Ela é... Cleptomaníaca! - Acusou o dito entendedor de psicologia.
- Não minta deste jeito... - O coração dela que sofria um trauma.
- Rouba tudo que vê... É uma coisa!
- Não estrague a minha vida... Nem acabe com a minha paz. - Queixou-se a ladra. Daí ensaiou certo mal-estar e deram-lhe um descartável copo d'água.  
- Foi ela quem me incitô, Doutô...
- Tu me enganou...
- Pode vê, Chefia... Eu nem tô cum nada em cima.
- Pô, figura!... - O Delegado encarou o ladino. - Vocês estavam no setor de moda feminina... O malandragem não ia querer uma sainha... - Então demonstrou sua perspicácia policial.
O sistema criminal idem levantou um assassinato cometido pelo vulgo. Faltando responder.
- ...O cara se engraçou cá minha mulher!
- Um crime passional...
- Legítima defesa, Doutô.
- Com duas facadas nas costas do morto?
- Nóis se embolô, a lâmina caiu... Ele vacilô e correu. Ali na forte emoção defendi minha honra. - Nisso ela se manteve calada. Não quis parecer cúmplice daquele desatino amoroso, preservando sua inocência infiel. Contudo, talvez, lá no fundo, o pilantra lhe tivesse algum apreço.
- Meu arrependimento foi não ter voltado, pra ficar com essa aí. - Parecia sincero.
- ...Depois disso, não amo mais. De jeito nenhum!
- Eu é que não acredito em tu.
- Você que me tirou do caminho, eu era mulher direita...
- Aí... Já tá mentindo, porque tu é canhota.
- Confiei nele, Senhor, deu nisso...
- Pois vou autuar os pombinhos... Inclusive, o Vandelton, segundo estes documentos que estão sendo apurados... - Mexia uns papéis distribuídos pelo tampo da mesa. - Ainda deve à Lei... Os dois pra gaiola! - Liberdade agora, seria aquela imensa estátua distante, na entrada da Baía de Manhattan, que ele assistiu em um filme de televisão. Tal como veria os dias na telinha da cadeia...
Foragido o bandido pródigo não tinha mais indulto. Perdera o endereço do presídio, num feriado do dias das mães. E quem sabe, Marluze se torne uma moça bem-comportada.

domingo, 15 de dezembro de 2019

O 'HOMEM DE DEZ MIL ANOS' # 1

Assentou-se o 'Homem de Dez Mil Anos' junto à uma nascente. Acima o mosaico de casas resplandecia na encosta sob a luz da tarde tranquila. Eis que se vislumbrava o reflexo de uma mulher no espelho d'água trazendo um pote.
- Posso eu também tomar desta água? - Aproximou-se largando o cântaro às margens do regato.
- A fonte dá de beber a quem tem sede. Sacia pois a tua.
- Pudera matar minha vontade...
- Seja qual for tua sede farta até o último gole.
- Bebo aqui a longos anos... Esta nascente é a mesma.
- Por certo ainda que tu sejas a mesma, as águas que fluem da fonte jamais. Pois o hoje mesmo que não percebamos, é diferente do ontem. O que é o presente senão o fim do passado no porvir. Embora parados, todos seguem adiante.
- Coisa alguma me satisfaz. Torno a ter sede. - Ele a vigia na sua faina. - O que possuía de valor dei aos necessitados. Em troca nada recebi.
- Julgavas consolar teu espírito com a caridade dos hipócritas? Que oferecendo uma esmola de vez em quando estará sustentando os famintos? Lembra-te, límpido é o manancial que jorra do coração. Partilha dele se puderes.
- Quis ser justa e fui vil. Errei por minha culpa. - Fez içar o pote transbordante. Ele a amparou.
- Assim como o veneno é próprio da serpente, também será o erro na pessoa. Todavia, os males e os pecados não estão nas coisas. Existem apenas na mente humana conforme sua própria moral.
- E se eu me corrigir... Isso há de me tornar mais feliz?
- Porque fazes da felicidade a mesquinhez de um único indivíduo. Uma pessoa alegre por alguma razão, não fará a felicidade da humanidade como um todo.
- Insistem que eu devo rir. Para não parecer sisuda.
- Sorria se quiseres contanto, que não seja o riso da tua idiotice.
Num sinal de gratidão ela abraçou-o e regou-lhe os cabelos com seu pranto.

domingo, 3 de novembro de 2019

JARDIM DE INFÂNCIA =======

Não importava quanto a vida lhe negue, o moleque sabia conquistar sua sobrevivência. 11 anos talvez. Pelas padarias, cruzamentos, ganhava um bom bocado que ameniza a fome. Ele mastiga as palavras em meio aos pedaços dum salgado.
A mãe nalgum lugar apartado da cidade, inquieta pensando nas maldades do mundo, não impedia de escapulir. Era o gênio dele respondia à assistente social.
Pedia, insistia. Voz contrita consistia a artimanha:
- Pô, tio! Paga aí... Ô, tia! Tô cuma fome. - Assim como um parente distante que aparecia de repente. Encontro fortuito de sagacidade ludibriadora da bondade. Apelava até conseguir. Uma coxinha, descolava um café com leite, doce ou refrigerante.
Um simples moleque. Ele o futuro da pátria. Pequeno herói do infortúnio, dado à travessuras urbanas, trazia o olho roxo socado por um guarda municipal da patrulha. Esses corrigiam por linhas tortas... Nisso deu uma golada num suco gelado, sabor artificial de laranja. Não era um menino mau, pois que aprendeu a criar "coleirinha", cuidado pela mãe. Tem uma gaiola pendurada no barraco da favela.
Há os que insistem em lhe dar conselhos. Perguntavam se o moleque tinha mãe... Se fosse filho de chocadeira! Enteado da sorte madrasta isso sim. Mesmo uns coleguinhas de rua sacaneavam dizendo, que nem o seu pai quis conhecê-lo. E riam com aquela inocência perversa dos fedelhos.
Lambendo os dedos engoliu o último pedaço, entornou o que sobrara no copo descartável. Depois de amarrotar o guardanapo, lançou fora da lata de lixo outra vez... Acertaria na próxima. Vendo isto a garçonete obriga que apanhe o papel.
Distraía-se com a programação exibida em televisores dos bares. Atendia o malandragem junto à esquina por um favor, filósofo da "letra" do asfalto. Garimpando um punhado de moedas, se dava o luxo de escolher o que comer nas vitrines tentadoras das bombonieres. Comprava drops pra agradar a garota bonita, que vende aos passantes ali na frente da porta do Banco. Daí era penar de bolsos vazios, estômago acusando novamente a fome. Passar por baixo da catraca do ônibus, se o motorista deixasse.
A vagar pelas calçadas, o moleque aventurando-se nos jardins da infância citadina, entre os bosques furtivos de prédios, desperta debaixo da marquise dos grandes magazines, quando o sol se levanta para um novo dia. Este querubim decaído, sujeito à pequenas trapaças dado o caráter da sociedade. 

terça-feira, 30 de abril de 2019

O 'HOMEM DE DEZ MIL ANOS' # 0

Seu quintal abrangia o planeta inteiro. Deste modo que preferia ver os espaços além da estrada, enquanto caminhava a esmo. Era no gozo da sua liberdade que o 'Homem de Dez Mil Anos' ampliava a dos outros ao infinito. Se a natureza o fizera humano decerto não faria sentido comportar-se feito as plantas, presas às raízes num único lugar; afim de florescer e brotar os frutos. Contornando o penhasco avistou pessoas ao redor de uma fogueira, junto à arrebentação das ondas logo abaixo. Diziam-se também viajantes em busca de seus destinos. Tinham os corações oprimidos transbordantes pela boca.
- A que viemos?... O que somos? É a sombra que persegue meus passos... - Expôs melancólico um deles.
- Reparem nossas sombras formadas pelo lume do fogo. - Iniciou o 'Homem de Dez Mil Anos', mostrando as imagens tremeluzentes contra o rochedo. - Elas estão lá, nós as vemos... Mas de fato elas existem? Assim é o Homem, miragem cósmica no universo. Preocupem-se em manter o fogo aceso. Seria o bastante.
- Nessas andanças um anjo me revelou que os tortos caminhos não levam a lugar algum. Que há só um caminho... Por isto minha jornada cessa aqui.
- Porque as pessoas temem Deus haverão de deixar de investigar os mistérios da existência?
- Nós nada somos ante os desígnios divinos. - Insistiu o andarilho resignado.
- A semente só germina tendo o caroço se libertado da casca... Haverá a terra de recriminá-la por tal audácia?
- Olho para o céu ao entardecer e pergunto a razão toda dessa angústia. - Disse a viajante aquentando as mãos no calor das labaredas.
- Não perguntem ao universo, onde nada repercute, conquanto saibam a resposta. O que importa sobre as nuvens não são as figuras que elas formam no céu, mas as forças da natureza que agem sobre elas. Assim procedendo estarão livres do cabresto social.
- Será possível nesta sociedade viver segundo nossa própria vontade?
- Eu sonho com o dia em que a Terra pare. Nesse dia as pessoas deixarão de lado as coisas fúteis do cotidiano, cumprir a despótica ordem estabelecida e raciocinar sem esta avareza da ganância. Para serem então novas pessoas, num mundo verdadeiramente novo. - Prestes a seguir tornou dizendo. - Tens a chave e a fechadura resta saber o que há por trás da porta... Quem tiver coragem abra!

domingo, 23 de setembro de 2018

PRÓLOGO AO VERDADEIRO =====

Às 7:00 h da matina, as notícias não eram nada boas...
"...Política!" - Pensou Zeca calando o rádio na cabeceira. - "Nunca muda, mas os políticos traíras arrumam uma desculpa qualquer... E ficam a favor dos tubarões."
Do lado de fora pelo quintal, numa perseguição frenética, o cachorro botava o gato do vizinho pra correr. Na certa estivera fuçando no lixo da casa, sendo surpreendido.
"Se melhora pra alguns contam prosa de que foi pra todos... O prejuízo sempre fica é pros mesmos." - Ninguém a quem recorrer bem sabia. Tinha que dar seu jeito. Assim, ele se martirizava tentando acordar.
O sol crepita as finas telhas de amianto, enquanto o ventilador ruidosamente soprava inútil. Mais outra manhã que rompia na rachadura do bloco nu.
"...Ainda ameaçam cortar as horas... Diacho de vida contra a maré!" - Ao saber que a greve ia dar em nada, se levantou com aquela decisão bem própria dos derrotados pela milionésima vez. E sua intenção íntima não cogita o reboco do quinto andar. Nem assembléia e blábláblá.
- Só tu que é besta!... Eu disse que essa conversa tinha serventia nenhuma. Já viu gente como nós ter querer? - Maldisse uma voz abafada pelo travesseiro.
Parece que o Zeca teria de ouvir a ladainha da mulher a vida inteira. E exato nas primeiras horas do dia... Duro era admitir! Somente queria o melhor pra todo mundo.
"Saracura desgraçada!!... Nem convalescida emudece" - Ruminou as idéias ainda babando o creme dental. Antes a mulher, ao menos, tranquilizava com as saliências. Tinha gosto em conversar, daí salgou a língua, vixe! - "...Digo pra não ser assim, ela não ouve." - Além do seio, a cirurgia arrancara-lhe o prazer. Tal operação fez piorar o gênio dela... Um amigo seu tinha razão e ele apenas confirmava, casamento é de escolha própria!...
- Pai!... - Despertou então. - Vamô no mangue?... - O filho esticava-lhe a barra da camisa aos trancos. Manteve o silêncio cuspindo fora a espuma do dentifrício... Mangue? Manguezal fora antes das máquinas enterrarem metade na construção do terminal de cargas. Os guindastes erguidos a assomar o horizonte da paisagem. Testemunhou da sua janela o alagado sumir e as guapirás, avicênias minguarem esturricadas. Juntamente com ele os marrequinhos de bico-vermelho, os jaçanãs, as garças.
Terminado o café passou a mão nuns trocados. Pôs o garoto na garupa da bicicleta, que se danasse a maldita responsabilidade. Estava de luto pela categoria. Decretara feriado.
- Some infeliz! Faz alguma coisa que preste... - Praguejou de dentro a tirana, ao sair da cama calçando os chinelos gastos, à procura do enchimento do sutiã.
Zeca adentrou numa picada no resto da restinga até o mangue. Ali passou bom tempo, a cara mais enfiada na lama do que caranguejos na toca. Sob o olhar atento do menino curioso.
- Tem uçá ai, Pai?... Tem? Insistia o garoto, bem orgulhoso dele. Mal reparando na careta do Zeca no instante que um caranguejo pinçara seu dedo tenazmente...
Quando com muito custo completou duas fieiras resolveu ir simbora. Não sem antes se divertir com o menino na maré, esperto dentro d'água feito um biguá atrás do peixe. Tendo a imagem da mulher na cabeça, mais o grasnir dum quero-quero pelas margens do estuário, partiu em direção ao centro da cidade. Acreditando naquela voz fantasmagórica da esposa, que lhe estimulava forçosamente fazer algum dinheiro.
Emergia do mangue pra se atolar no asfalto. Numa esquina largou as dúzias de caranguejos que foram obrigados sambar o "miudinho" cadenciado com as seis patas, tal a quentura da calçada.
- Tá barato aqui na minha mão, hein!... Caranguejo fresquinho!! - Zeca arriscou no pregão improvisado. Palmeando alto afim de chamar a atenção.
Uma certa hora da espera pelos interessados na iguaria (já não tão fresca), os trocados valeram a si duas canas e uma tubaína pro filho. Nada demais, avaliou. Até o encorajara pedir cigarro a um pedestre... Matutava na vertigem da embriaguez, assistindo convicto a sorte dos bichos.
"Camarão que cochila a onda leva..." - Escapuliu indolente o refrão do pagode de partido alto.
Muito tempo também passou até o Zeca estar convencido de que ninguém tinha fome dos uçás. E mesmo os próprios haviam desistido de fugir daquela sauna inquietante no calçamento. Chamou o filho que distraía-se com a maré de sapatos dos transeuntes. O jeito seria pôr os caranguejos numa panela, preparar um bom angu com o caldo... A janta tava garantida.
"Se a maré tá braba, são os cabeças-de-bagre que a onda arrasta..." - Foi refletindo nisso que encostou a bicicleta junto à cerca de ripas. O vira-lata raquítico saudava fiel seu heroísmo diário. Logo apareceu a mulher, olhar fulminante, baforando a fumaça do cigarro na intenção de apressar as ofensas. Velhaco, ele estendeu na direção dela as fieiras.
- Olha aí, meu chamego... Graúdos como você gosta.
Por perto os últimos pardais e bem-te-vis num jerivá sonorizavam a tarde derribada sobre os morros além da vargem grande. Ao final do dia só o cachorro parecia estar satisfeito.
  

sábado, 25 de agosto de 2018

A RAZÃO DOS TOLOS =======

Que ela tinha uns hábitos estranhos ninguém negava. O cabelo sem pentear parecia denunciar a confusão mental que ia por dentro da sua cabeça. Ou mesmo colocar o maior número possível de vestuário sobre o corpo em pleno verão, nunca lhe causara estranheza. Mas chamá-la de louca seria confusão na certa, isto sim a levava à loucura.
Os sobrinhos quando queriam atazaná-la logo diziam que ela era doida demais. E disparavam em gargalhadas fugindo da tia ensandecida. Ela rejeitava tal idéia como se um fantasma a perseguisse. Desesperada corria pra entupir-se de calmantes.
Jamais fora mais longe que o portão de casa. Além é claro, do pronto-socorro durante suas crises. Onde costumava entreter a longa fila com seus casos quase fatais. Da vez que passara um final de ano em coma, praticamente vegetativa, só acordando no ano seguinte como que ressuscitada.
- Não acredita...? Na tv vira e mexe mostra gente que vive feito repolho. O hospital inteiro veio me visitar... Juro. Ficaram impressionados! Coisa de Deus!! - Dizia a um desconhecido qualquer com quem conversava na maior das intimidades. A discorrer sobre o comportamento das enfermeiras, sempre se referindo como verdadeiras pestes. - Essa aí de santa só tem a cara... - Indicando com desprezo uma inocente que cruzara de um consultório a outro, distinta no seu uniforme imaculado... No mais, o orgulho que sentia das doses cavalares de tranquilizantes que já havia tomado. Numa minúcia de prescrição medicamentosa de fazer inveja a muito doutor. Tudo pelo princípio ativo e dosagens específicas. Algumas vezes ainda presa à maca, Ela já vinha exigindo o que deveria ser ser ministrado. Como ficaria curada, fosse outro remédio teria efeitos colaterais. Nem carecia incomodar o clínico de plantão. O médico era um mero detalhe. A injeção é que resolvia seu atarantamento. Dali somente aceitava sair medicada.



Nem sempre dizia coisa com coisa, repetindo-se num mesmo assunto. Retomando a descrição anterior do ocorrido como fato novo. Sucedia momentos em que ensimesmava num silêncio tumular. Entretanto, acontecia sair-se com uma dessas:
- Sabe, eu não queria ter nascido gente... Era melhor nascer árvore. Sozinha num quintal, num pasto. - Dizendo isto plantou-se de pé com os braços estendidos para o alto, os dedos espichados imitando dois grandes galhos.
- Tolice, mulher... - Repreendia a vizinha. - E se fosse uma planta no meio da mata? Ia ter árvore de todo lado.
- Qual o quê! Árvore não fala. Cada qual cuida da sua própria vida... Sem aborrecimentos.
- Enterrada no chão assim...? - A outra ironizou.
- Desde que me conheço por gente, vivi enterrada nessa lugar.
- Ih... Parada deste jeito que você está! Ia cansar, cair e quebrar o galho.
- Ao menos tinha alguma serventia. Virava porta. Talvez, uma canoa...
- Que foi!? Ficou maluca de vez!
- Eu?... Nada! - Suspirou fundo lastimando sua própria condição. - ...Cansei de ser gente. - Em seguida balançou os braços como se uma aragem repentina lhe pendesse os galhos.
     

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

À MEIA-NOITE DO NOVO ANO =====

Foi numa dessas festas de réveillon. Eu era convidado e estava desacompanhado, um tanto sozinho entre os convivas. Ali em meio a diálogos, situações, não pude escapar a avaliadores pensamentos, por vezes despertos pelo rito social daquela ocasião...
- Ah, querida, pra ajudar a sorte me precavi. Cartas, folha de louro na carteira, troquei os lençóis... Até búzios!! As coisas precisam dar certo! Não poupei nem o marido. Tá de cueca amarela. Né, meu bem... - Ele riu, tinha uma espécie de segredo descoberto.
- ...Cada ano experimento algo diferente. Pular 7 ondas do mar, uma comida sabática, agora aprendi um mantra de prosperidade. Mas não posso revelar à ninguém...
- Xô,xô! Vamos afastar os maus fluidos... - Sobressaiu-se uma voz efeminada. 
- Como sou religioso, rezo, faço promessas, nunca tive essa necessidade... - O branco do traje lhe convinha. Trazia consigo um precioso amuleto sacro... Deixei-me envolver numa conversa de um grupo formado no sofá e poltronas. O que esperar para o próximo ano? Conforme consultam tarólogos entrujões, astrólogos sem lunetas, em suas previsões óbvias de amor, saúde, dinheiro. Previsíveis conselhos consoladores. A recomendar simpatias, banhos de flores, sais e ervas, sessões espirituais. Essas supersticiosas pessoas esclarecidas (de suposto status, algumas cultas!?) dizem piamente acreditar, sem se diferenciar nada da gente comum, tal qual a doméstica ou o torcedor de futebol...
Se bem me recordo a trilha sonora dum aparelho estereofônico reverberava pelo ambiente músicas de Elvis Presley, Frank Sinatra, Johnny Rivers, Dionne Warwick, Barbra Streisand, Roberto Carlos, Ângela Maria, Nelson Gonçalves, Charles Aznavour, Peppino di Capri, Julio Iglesias, embalando latentes emoções.
- A festa está maravilhosa, Sr. Urbain... - Ouvi duma faceira conhecida a mim apresentada momentos antes, que parecia ter errado no vestido para a noite, passando entusiasmada através da sala rumo a sacada da varanda.
Lindas velas desfeitas em brandas chamas ardentes iluminavam os recintos. Dourados reluzentes enriquecem a decoração. Havia um antigo relógio de pêndulo que marcava as horas, na derradeira volta daquele velho ano.
- ...Sim. É importante preparo para o mercado. E saber capitalizar! Entender a energia que o move. Pouco rende a financeira, sem a intuição mental. Não por acaso, sempre escolho datas emblemáticas quando estabeleço um novo negócio, números simbólicos, ligações ancestrais. Faço mesmo um estudo extra estatístico, um mapa astral business!... - Dizia um obstinado empreendedor, desses que empenham em crendices seu sucesso. - ...Atitudes positivas colaboram muito. Manter a cabeça contra as dúvidas. O universo devolve o que você mentaliza! - Afirmativamente concordaram aqueles entorno dele, imaginando girar a Roda da Fortuna.
Daí certo indivíduo já embriagado antes da hora, a todos proferiu seu raciocínio etílico:
- Ei, pessoal!!... Quero falar o seguinte... - Quis parecer sóbrio, a espontaneidade desalinhava-o. - ...Um minuto de atenção!... A gente não pode se acomodar. O próximo ano é de mudança! - Cambaleou satisfeito, porém decepcionado com a solidariedade.
É evidente que dentre tantas razões este ritual se repita. Talvez homens e mulheres não se deem conta da misteriosa expectativa... As pessoas comemoravam o término daquele ano por terem vencido uma vez mais a morte, adiado para mais tarde o seu fim...
Então, pelos céus refulgem as estrelas cadentes dos fogos de artifícios, o ribombar dos rojões, todo espocar do foguetório. A varanda repleta, outros debruçavam-se nas janelas, saíram ao quintal de mãos dadas, abraçados felizes da vida, enquanto miram o céu profundo... Nisso espocavam champanhes, transbordaram taças tilintantes, batiam corações desejosos em realizar velhas esperanças...
De minha parte o que sinto, é que o amanhã será outro dia. E a certeza do sol que se levanta.
    

quinta-feira, 13 de abril de 2017

CONTO PASCAL =====

Pelos dias da semana santa cristã vinha perambulando (nada de novo) quando deparou-se com um peixe morto na calçada, as escamas gratinadas ao sol, o olho seco vítreo, assado sob à luz outonal da cidade.
Um feriado assinalado em cruz vermelha no calendário, ainda romano. Época de férteis ovos de páscoa em enfeitadas gôndolas comerciais, pratos a base de peixe e frutos do mar. Reportagens falavam boquiabertas dos preços, tanto como do sacrifício amargo de cada um para o doce consumo. A reprise sádica da Paixão de Cristo nos canais de tv. Lotadas igrejas piedosos sermões, pregações extremadas. Desde o Natal o cordeiro primogênito de Deus havia sido cevado dos conhecimentos da vida rés, portanto estava pronto para ser servido à fé faminta. Despedaçado em cerimônia antropofágica, repasto de almas ávidas negociadas nas alturas por "Todos-Poderosos".
Nisso lembrou do panfleto bíblico dos "Testemunhas de Jeová" entregue num cruzamento da avenida. Jazia no bolso da calça, graças ao seu sentimento politicamente correto, pois a senhora que lhe estendeu as divinas escrituras abrasava com o calor dourado do meio-dia... Nunca sabia o que fazer com as inutilidades, a instrução era que não se jogasse aquelas palavras na sarjeta. Considerando-se distante dessas coisas. Pouco culpado pelos reveses do mundo. Até ele parecia caridoso, dando trocados aos pirralhos malabaristas dos semáforos. Onde saldava sua dívida egoísta.
Aquilo é possível que fosse um sinal sobrenatural. Ele incrédulo diante do milagre, quando o peixe saltasse da calçada arredio e nadasse pelo asfalto seguindo o tráfego, a multiplicar-se e matar a fome insaciável... Acredite, nem tinha tomado tantos cálices assim. Embora uma pomba urbana arribasse duma luminária do poste da rua... Ah, morte inútil! Sem ressurreição.
Mas não deixou de pensar naquele desperdício.


segunda-feira, 3 de outubro de 2016

PLATÔNICO BUROCRÁTICO =====

  "(...)Sua carne estava sempre em brasa, e seu calor
   era contagioso. A mais fria das peles se aqueceria ao seu contato..."
                                                                        (Anaïs Nin)


Requeiro para as boas intenções afins,

do teu corpo lavrar posse, minha musa amada.
Enquanto caminhas satisfeita pelo quarto,
só vestida com a fumaça do cigarro,
a esmagar meu coração aos teus pés...

Sem veleidades considerar o que fazes,
que o juízo alheio julga errado
a induzir-me igualmente em flagrante delito.
Contudo, tomo isto como um pecado abençoado
ao invés de lamentar por sequer tê-la tentado.
E uma única vez apenas infringir essa proximidade,
dizer ao teu ouvido maviosamente:
"Tua vontade é o que tu queres.
Nada mais pode sê-la proibido!
Não temas minha petição."

Dar vazão à minha virtual obsessão predileta.
Te dar banho afagando-a de um modo indiscreto.
No entanto, confessas descuidada
suas paixões numa conversa.
Posa e se arruma
pro meu exercício literário.
Às vezes me repara
com seu olhar distraído,
conjeturas, beberica no copo
entre outras coisas etcetera...

Eu, platônico, outrossim, burocrático
te espreito na promessa de tê-la.
Somente por uns instantes
volúvel como só tu sabes
encobrir tuas falhas nos lençóis.
Que a outrem fá-los perdoar
pela saciedade dos teus beijos sumarentos.
Quanto a mim, basta o rumorejar da tua saliva
enquanto ri. Todavia, também sinto sede.
Dai-me de beber com um beijo.

Assim eu te beberia a desfrutar
a embriaguez do teu cálice,
brindando na presença de todos.
Mesmo que testemunhos maledicentes
atestem a verdade que dou fé.
Ele é casado! - Tamanho escândalo
por causa de um beijo,
olhos fechados quando me convém
vislumbrar o oásis deste teu regaço.
Pois estou cego, dá-me a esperança desesperada
de constatar meu desengano.
Que mal há em ver aquilo
que não existindo
possa-se sonhar o engano?

O que Vi? vi antes, não melhor nas outras.
Mas este encantamento que lhe sobra,
do qual me alimenta os restos.
Um tal fogo que não queima, porém se incendeia.
Esta ferida dilacerada, "muda e sempre".

Não vejo como impedir o indulto
desse sentimento neste meu coração perjuro.
Quem culpar se no amor os culpados
são apenas vítimas consentidas?
Embora seja réu declarado
conivente da mentira.
Pretendo elucubrar meu sentimento sórdido
te amar bendizendo casta e pura.
Condenado castigo,
admitir mea ingênua culpa.

                                 Vicente de Carvalho, Outono de 1996.
   

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O AMOR VENCEU... ========

Quem disse que o amor se deteriora ante as dificuldades cotidianas. Não para aquele casal de desvalidos. Apaixonados sob um pórtico neoclássico em ruínas, então contrariavam muitos litígios matrimoniais.
Alimentando seus modestos sonhos de vida doméstica. Viver para ser sua imperdível jóia rara. Que o sol e sal não fossem somente a paga do seu salário.
- Je vie de bec, mon amour. Ironizava tendo aprendido dum programa humorístico da televisão.
Se davam ao luxo de contemplar uma noite de lua. Acreditando que os astros responsáveis por os unirem (ele pisciano, ela de Aquário) mudassem aquela sorte monetária.
Juntos, protegidos da chuva que lava caudalosamente as imundícies da sarjeta. Revolver o lixo à cata das sobras deliciosas. Um final feliz de novela pela tv da padaria da esquina. Ou o fundo musical num alto-falante do carro de propaganda gritando em pleno calçadão, no dia dos namorados:
" Baby, sem você não dá!" - Trilha sonora acidental daquele idílio público. Cenário dum beijo inesquecível  com sabor do seu anterior gole de pinga, embebido no gosto acre da perdida escovação dentária dela.
Pouco importa se as flores são achadas também murchas, num agrado que faz, sendo o amor quieto e suarento debaixo do abrigo de papelão ao rés da fachada duma agência bancária.
E se lhes consomem as dúvidas. Caso não a quisesse feito um prato de comida. Entendesse que não fosse o homem da casa, nem tenha conquistado o mundo... Era crer o amor venceria tudo.
Convicto da razão que só o coração conhece. Bem contrário a si é mesmo o amor.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

O PASSADO TE CONDENA =====

Retornado tanto tempo depois a sua cidade natal parecia um estranho. Havia também certa estranheza da vivida paisagem urbana. Prédios construídos sobre os antigos chalés de madeira. O coreto dos namoricos, o chafariz esguichante, o relógio digital do calçadão, extraviados décadas atrás. Embora o número de habitantes aumentara, se espalhasse nos rincões do lugar, pouco mudara de fato.
As mesmas figuras citadinas, seus descendentes vagueiam nas portas dos bares, malucos, alcoólicos, pedintes pelas  mesas da calçada. E há noites lunares em que eles proliferam. Assim, um mendigo masturba-se ao olhar as periguetes que bebem incomodadas, energéticos e doces refrigerantes.. As portas dum Citroen prata escancaradas, vazando tunado hits do funk... Alguém expulsa o inconveniente, sem no entanto o sujeito largar os bagos entre as calças. Nisso o dono do bar oferece-lhe um melão e emenda a típica dialética do balcão.
- Fura esta porra, recheia, entendeu?... E depois come! Praga, some daqui!! - Abraçou desajeitado o fruto apodrecido. Sem dúvida tratava-se de um velho conhecido.
...Do nada surge aquela pessoa enigmática. Rompe a intimidade, o aprisiona num encontro de olhares curiosos. Se põe a sentar.
- E aí, lembra de mim?
- Sei não...
- Tá vendo, o cara não se lembra mais de mim! - Critica amigavelmente. Era um antigo vizinho da infância, num dos bairros em que morou à época. Tenta trazer pela memória. Contudo, dissesse o nome não se recordava... Enveredara na senda do crime. Tráfico. Morte de policiais. Acerto de contas com iguais bandidos. Puxou anos de cadeia. Gostava muito, muitíssimo de mulher. Por isso preza a liberdade. Tem inclusive uma estátua no "criado-mudo".
- Cadeia é você preso numa cela cheia de cão danado. Na secura... Querendo morder o rabo do outro.
Risca-lhe seu pensamento as brincadeiras de moleque repletas de traquinagens, pálida lembrança de inocentes perversidades da turma.
- Tem coisas que a gente não se lembra...
- ...Já pensou se você tivesse me devendo? - O tal ri entre uma nuvem de fumaça de cigarro Free Slims vermelho.
Tem problemas de insônia. Fuma em demasia. A bebida que parece ser sem exagero, serve como paliativo. Apenas um conhaque Domecq e danou a falar com a sobriedade dos embriagados. Do quanto a vida podia ser injusta. Difícil pra quem tem sentimentos. Laços de amizade. O valor de um proceder. E mais recordações que não consegue atinar.
- Você tem vindo sempre aqui...
O outro expressa surpresa no olhar.
- Trabalho na sala de segurança, lá em cima. - Aponta o 2º andar do prédio com vista para a calçada. Faço segurança à paisana. tenho visto pelo monitor do circuito de câmeras.
A conversa perdera o tom agradável.
- Nem acreditei quando reconheci.
- Não sou bom de memória.
Você era um sacana!...
- Faz tanto tempo.
- Vai ver eu sou um cara, que as pessoas pouco reparam... A não ser para tirar um sarro. - Sua fisionomia bastante sinistra intimidava;
Porque houve uma vez, se lembra, daquela inconsequente piada juvenil. Os rapazes brincavam com as espadas. Descobriam-se na sua masculinidade. O flagrante armado desnudou a cena, de contornos picantes na boca da vizinhança. Surras dos pais. Risos, humilhações. Até se esquecerem daquilo tudo.
- Veja, você pode estar se confundindo... Tenta dissuadi-lo.
- Sempre guardei fisionomias... A gente tenta deixar o passado pra trás.
A cerveja pilsen acaba. Esboçou chamar o garçom, sendo interrompido.
- Vamos acertar nossa dívida... Não se preocupe, já paguei tua conta. Agora preciso cobrar. - Deixa entrever dentro da jaqueta seu revólver.
Viu o copo vazio do último gole gelado. Depois mirou a rua, rutilante de constelações das luminárias dos postes, semáforos, luminosos do comércio, numa noite de repente estanque. Sequer almas-vivas...
- Pensa bem no que você vai fazer... - Nada o demove.
Talvez fosse uma travessa que passara algum dia. Forçosamente conduzia-se rumo à escuridão, sob uns manacás floridos. Subjugado num abraço hostil pouca chance teve de agitar-se, até a cutilada profunda de um punhal atingir suas vísceras.
Ao rés da sarjeta, no negrume extenso do asfalto. Do casario que se agiganta surreal. O mundo invertido adentra a retina. Lá adiante um gato pardo furtivo cruza a avenida nas sombras.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

ADORÁVEL MANEQUIM =======

Seu casamento perdera o encanto, confessou ele em uma das sessões iniciais no meu consultório. Até aí nada que causasse estranheza à análise da psicologia. Possibilidade de elaborar um diagnóstico.
A cônjuge dominadora o prendia no lar. Controla seus passos, tenta ler seus pensamentos, quer ver atendida ainda mil exigências e gostos egoístas. Queixava-se ele. Ardentes "tapas na cara" e amargos beijos.
Certa ocasião, dirigindo seu carro à noite pelos lugares da cidade encontrou Sheila. Embaixo dum poste mal iluminado, praticamente no lixo. Desarticulada e esquecida numa sarjeta.. Se sentiu tentado a pegá-la e levou consigo para casa. Muito embora faltasse um braço. Nem por isso deixara de ser bela a Vênus de Milo assim amputada. Providenciou um vestido emprestado da patroa. Ela já tão exposta na vitrine, nua na calçada. Sob o olhar admirado da clientela. Sheila, nome de batismo, como soube, era uma manequim de loja desempregada.
Passaram a conviver tendo a manequim, uma agregada da casa. Ele cuidava pessoalmente de Sheila. Trocava-lhe as roupas, punha lingeries de renda, acessórios femininos: sapatos, bolsas, pulseiras, colares, óculos, perucas, lenços, chapéus. Logo esbanjou a dar as melhores roupas e presentes surpresa, aspergia caros perfumes naquele corpo de plástico cor de pele. Interessou-se por moda fashion para vesti-la bem. Compartilhava posts nas redes sociais ao lado de Sheila, vestida em diferentes figurinos, poses, passeios, eventos.
- Você me completa, Sheila... Vão dizer que fiquei louco. - Revelou tomado num estado hipnótico. - Apaixonara-se por ela, a manequim. A mulher escandalizada sentiu-se traída por Sheila. Parte de um triângulo amoroso inusitado envolvendo o marido e aquela boneca. Um descaramento admitir o amor por outra, não bastasse trazê-la para dentro de casa.
Sheila permanecia disposta pelos cômodos. No sofá, à mesa do jantar. Ouviam música juntos, singles e baladas românticas tragicamente veladas pela esposa enciumada. Justo a manequim, mulher ideal, companheira. Modelo sob medida. Presente nos momentos festivos da residência. Férias na praia.
Quando decidiu a primeira vez passear em público de braços dados com as duas, a esposa ficou fula com semelhante perversão:
- Mas, eu não vou ajudar a carregar essa piranha! O senhor vai se virar sozinho. - E tudo terminava em desencontros. Disputavam mesmo as duas um lugar na frente do carro.
Na companhia de Sheila, ele conseguia abrir o coração.
- Com ela consigo conversar. Sei que me entende, Doutor. Vejo isso nos olhos dela fixos em mim. E nem precisa dizer nada. - Justifica dramático recostado no divã. Sofria estar apartado naquela hora do objeto de seu amor, na ante-sala. Sheila o apoiava.
- Isso que o marmanjo quer, brincar de boneca?... É ela, ou eu!! - Alguém era demais naquele relacionamento. Se a mulher não fosse tão tirana. Trocaria de vez a manequim pra estar com a esposa.
Imaginou que a manequim havia sido moldada num corpo de mulher verdadeiro e nele ficara a essência feminina, ganhando vida nos seus braços. A sós, sentiu-se estranho ao vê-la no banho quente. Seu corpo de plástico, tépido.
- Ah, aqueles mamilos duros!... - Deleitava-se ao mencionar os predicados. - A curva firme do seu traseiro... Sem palavras, Dr.
Uma tarde a mulher flagrou o infiel... Deliciava-se!! Prazer de fazer inveja.
- Eu já vinha desconfiada dessa afeição pela boneca... - Constatava a traição consumada. Tanto lamentou não ter uma máquina fotográfica naquele instante. Livrara-se dum processo por danos morais.
Rejeitou qualquer terapia curativa. A argumentação de necessitar relacionar-se com pessoas de carne e osso. Seria Sheila projeção da esposa que sonhara... Queria se entender. Tanta gente destina seu afeto a um bicho de estimação, que quer bem. Um pop star que jamais vai conhecer além dos posteres, um toy virtual numa tela de computador... Por que não Sheila?
Pediu o divórcio, temia ser acusado de bigamia.