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terça-feira, 3 de agosto de 2010

OS QUE ACOMPANHAM O ENTERRO =====


                                      Carolina de Jesus está morta!
                                      Isto é sabido...
                                      Quem provocou sua morte 
                                      e de outros tantos
                                      ninguém desconhece.
                                      Estes que ostentam caridade
                                      com os níqueis de suas fortunas.

                                      Carolina de Jesus está morta
                                      e nós continuamos vivos!
                                      Escravos remunerados,
                                      abjetos de barganha do capital...
                                      Tua é nossa sina, Bitita,
                                      por descaminhos diferentes.

                                      Carolina de Jesus está morta!
                                      Assim, sua memória permanece viva.
                                      Outros mais findarão sem que haja
                                      recordações e lágrimas para todos.

EREZINHO ================

Um bom menino sim, tinhoso às vezes. Qual criança não dava trabalho? Nosso Senhor o criara daquele jeito... Sumia dias seguidos, depois retornava - presente embaixo do sovaco sem preocupação de embrulho.
Braços abertos ela o retinha junto ao colo. Não aquietava nunca, depressa o malandro escapulia... Maliciosa a tia ranheta caçoava tentando abrir-lhe os olhos.
- Titia... Como não conheço. Se o danado saiu daqui ó! - Apontava o bucho caído. Noutra hora admitia ter ele muito dela.
Metia os pés pelas mãos (as mãos nos bolsos do alheio, os pés na fuga). Feito louca corria atrás da fiança. Descoberto o endereço da vítima procurava convencê-la da culpa das más companhias. Nada conseguindo ofendia e ameaçava... Que custo tinha conceder o perdão? Ninguém faria do seu garoto causa perdida. A idade haveria de consertá-lo, pondo-o nos eixos.
Amor de mãe ameniza os defeitos. Mas, a justiça que é madrasta severa deu no marmanjo o corretivo à duras penas.
No domingo, dia de visita na detenção, ela preparou a melhor marmita, cigarros... Perto da portaria formava-se tremendo rebuliço. De longe viu uma moça desmaiar. Aflita deteve as passadas. Nuvens escuras pairavam sobre as guaritas. Rogou balbuciante à Iansã auxílio para o erê. O céu retorquiu com trovões...
Conduziram-na até um vestíbulo onde trouxeram o filho numa maca, o pescoço dilacerado. Enleou-se as vestes ensanguentadas e percebeu que haviam arrancado dele o coração... Agora era o dela despedaçado. Quem poderia querer tanto mal ao seu menino?

terça-feira, 27 de julho de 2010

E-MAIL ==================

               

                Oi! :-)





        Eae... Como vai?




Eu sto otimamente bm, + ou - constrangido. Rkonhço meu papel (higiênico) ridículo, mas vc precisava sr tão asséptica?... No fundo era preciso tr m usado msmo. A paixão há mto é lixo reciclável. Caso eu tvse um computador dses q resolvem problmas complxos encontraria uma solução + razoável pr'kela patética dzpdida. Não tria sofrido mto, nm t amado tanto, e ambos estaríamos satisfeitos. Vc sem piedade, eu sem sentimento d culpa, ninguém fdp. Porém isso, não é motivo p vc pensar q comprei um vídeo-game d última geração p sr meu próprio inimigo.


                                              Bjss.

DESBUNDE ================

- Prêmio Nobel de Arquitetura... A mulher é um monumento! - Teria cochichado alguém.
Fafi agora fazia questão de usar seu short minúsculo, que mal encobria seu rebolado avassalador.
Suas idas e vindas à academia provocavam verdadeiro furor no porteiro do prédio. Não havia este que não se admirasse daquela anatomia exuberante dentro do colant grudadíssimo.
Cavalheirescamente ele abria a porta do elevador e arriscava poetar meditabundo, cobrindo-a de furtivas olhadelas...
"Deus é justo
 Mas, o seu colant...!"
Qual prótese, o quê! Redundância sísmica!! Lan, o cartunista, não traçaria maior perfeição desta forma em coração.
Com que altivez Fafi desfilava pelo bairro, depois de assistir uma reportagem na televisão informando que mulheres com quadris avantajados viviam muito mais. Tudo por causa de uma tal gordura benéfica descoberta pela medicina, que se depositava naquelas nádegas maravilhosas.

terça-feira, 20 de julho de 2010

PARTICULAR ==============

Querem nos fazer crer que os astros
"Conspiram a nosso favor".
Aliás, se o fazem em tamanho segredo conluio
Enigmáticos no jornal arranjar a galáxia
Pra livrarem-me dum inferno astral.
Acaso portanto...
Se no zodíaco deposito minhas esperanças,
Que ação há nas estrelas paradas no céu?

Numa sustentação de hipotéticas crenças
Vaticinam modernas cassandras:
Gente bizarra feito nós
Vinda do espaço
Com receio de ser piegas,
Mal entendido.
Por temerem enfim estarmos sós,
Essas pitonisas  esquizofrênicas
Procuram sinais numa vã tentativa
De como 'salvar nossas almas'.

Desafortunados viajantes do universo
Vide, "non sum qualis eram..."
Nós aqui persistimos
Impecáveis, inequívocos,
Zeugmáticos.
Bem-aventurados graciosamente
E bem consigo solidários.
Quanto a mim... Ora sim, encucado (!?)
Pra onde se foi todo mundo?
Não creio vagarem perdidos
Na mesmice ocupados.

O JULGAMENTO DE PIEDADE =====

" - O nenê vai ficar uma graça neste babador azul. Olha isso... Que meigo esse pagãozinho! - Se a patroa soubesse os tormentos que iam-lhe por dentro. - Fé, moça!! Deus só dá o fardo a quem pode sustentar... - Aquela criança parecia ser a única alegria desses seus 18 anos. Nunca teve amparo, rumo certo e morava agora no quartinho da casa em que era doméstica. A infelicidade anda acompanhada, dizem. O seu menino lindo tinha o corpinho entrevado de nascença. Que cruz aquela para um ser tão mirradinho! Jamais perseguiria atrás de uma bola de futebol. Ou correr até ela pedindo um abraço, pois os braços não obedeciam ao desejo do corpo. Que fosse enjeitada nenhuma novidade havia, contudo o filho merecia melhor sorte... Veio a noite. Tanta mágoa converteu-se em pranto abafado pela chuva. Suas súplicas pediam algum perdão. Mas apenas colheu do peito opresso respostas mudas, senão o fragor íntimo da tempestade... Quando o sol surgia e os pardais trilavam nas antenas correu a janela e deixou que a manhã entrasse, cobrindo o guri de luz. Vacilou tendo-o no colo entre os seios, ante aquele pensamento aterrador. Viu-se naqueles olhos miúdos... Debruçou-se sobre o recém-nascido, sufocando o rosto dele contra o travesseirinho e apoiou sua cabeça, soluçava desamparada..."
De repente, Piedade despertou com a voz do juiz. O promotor acabara de relatar as minúcias dos fatos. Que poderia alegar em sua defesa? Insistiu o magistrado percebendo seu aspecto contemplativo. De fato, no que regressava disse com aquela inocência do amor materno:
- Tive pena do meu garoto. Que vivesse preso numa cama. Dizem que quando as crianças morrem, viram anjos. Quem sabe no céu, com asinhas ele possa voar solto sem precisão das pernas...

terça-feira, 13 de julho de 2010

PESAR ===================

Pois que tamanha distância
Em certa medida
Inicia logo aqui dentro
Num casulo próprio.

Ou ainda, nas cartas que te mandei
Silêncio extraviado,
Palavras que se esquivavam reticentes
Pra nada responder.

Eu, incerto remetente
Destinatário de mim mesmo
Mudei de abrigo
E esqueci definitivamente teu endereço.

Acabei com essa relação sem sentido
Quis me distanciar
Deste meu ímpeto de percorrer até a estrela prometida
Desse seu modo cínico de ostentar o pingente no colar.

DRIBLAR A VIDA ==========

Últimos minutos do segundo tempo da partida. Seu time perdia 0 X 1 no placar. A vida também andava péssima. Aluguel por vencer, brigara com a companheira, sem emprego. Maldizia a maré de constantes infortúnios. Herança de família, bem capaz!
"- Alça pra grande área, tira dali a zaga adversária na retranca... Instantes finais dramáticos, Torcedor!!" - O locutor carregava nas tintas. A chiadeira dele e do rádio era geral. Nem no futebol merecia sorrir. Aliás, supunha milhares feito ele. Em algum momento, como na marca do penalty. Coração contido, num único compasso. E não fora sempre assim...
"- Recupera Luís Pereira, solta pra Da Guia... Domina na meia-cancha, ajeitou a pelota. Liga com o ataque..."
Era torcer que na Segunda-feira houvesse alguma vaga disponível. Já não escolhia mais, qualquer colocação vinha de bom tamanho.
"- Carrega Pelé, pára, gira, protege... Tabela com Edu pela ponta. Recebe combate, sai pela linha lateral... O tempo passa meu, meu povo!"
A esposa naquela marcação cerrrada culpava-o ante a ameaça de ter os cacarecos jogados na calçada.
"- Insiste com Muller, passa por um... Enfia no alto pra Careca que mata no peito, amortece a gorducha no gramado. Levanta a cabeça, inverte a jogada..."
A que santo pedir? Nenhum dera-lhe ouvidos. Por certo fossem apenas estatuetas de gesso.
"Pode ser agora, esta é a hora..." - De repente, ele sentiu o cheiro no ar. Fez sua derradeira promessa.
- Eia, meu São Jorge!...
"- Se manda Wladimir, toca com Zenon que devolve de prima. O lateral faz o breque, viu Sócrates livre... O camisa 8 recebe, finta o zagueiro, bateu por cobertura... É Gol! Goooll!!" - Não conteve-se, esmurrou o ar naquele brado forte. "- Do Corinthians! E que golaço!! Tá na rede, Torcedor. Quando já eram passados 45 da etapa complementar. E agora goleiro vá buscar... No fundo do barbante. Explode a galera e as bandeiras estão tremulando no estádio..."
Do círculo central, braços erguidos o árbitro apita fim de jogo. Menos pior. Chutava a zica pra longe. Desta feita a sorte não foi tão má com ele.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

MUNDO A JATO HOMEM DE BICICLETA =====

                 Aquela estrela parece mais perto
                 O avião a jato
                 Recordes batidos
                 Deus mais próximo,
                 Menos recados.
                 Gente próspera
                 Nosso (E)stado é outro
                 Viva o mercado!
                 Nada será como antes,
                 Agora todos juntos...

                                                                          mais distantes!

MALÉVOLO ================

Por que sussurrava insistente ao ouvido aquilo que deveria executar? Ele bem saberia agir sozinho. Entretanto, viviam sempre juntos, o tal azucrinava-lhe:
"- Olha que dona tesuda!! Se ela te conhecesse melhor, talvez soubesse o quanto tuas mãos são carinhosas... Chega lá, conversa. Esta indiferença fingida é puro charme..." - A timidez dele fazia da proximidade qualquer coisa  intransponível. Sequer notavam sua presença. "- Estou dizendo, rapaz. Um mundo de fantasia emaranha-se naqueles cabelos. Acredite... Você será o estopim prestes a detonar a fúria sensual por baixo daquele vestido."
Durante a juventude o sujeito até parecia um cara bacana. Dialogavam horas seguidas trocando confidências. Apesar de toda paixão pelo sexo feminino, quase não tivera namoradas... Mais tarde revelou tamanha ira pelas mulheres. Puritanas de fachada, meretrizes na intimidade!
E isto punha-lhe em pânico. Inúmeras vezes caminhando na praça ou num clube, ele aparecia do nada. Pronto a tomar conta da situação. Então, o seguia oculto e Ele seguro de si enredava a presa.
Aquele estrebuchar da vítima excitava-o. Ao dominá-la lambia-lhe as lágrimas, tapava seus gritos com beijos. Enchendo-se de ternura ante a fragilidade dos seios sôfregos... Estranhamente os dedos crispavam tornando a carícia um gesto rude. Era o que todas mereciam! Sob o eclipse da penumbra seu espectro incutia o ódio sádico tendo terminado:
"- Essa jamais vai te querer de novo. Idiota!... Ela já tem dono. Você é apenas outro mais... As vadias se repetem tanto." - Daí sugeria malévolo. "- Mas, pode ficar com algo dela. Uma lembrança... O coração!"
Assim que acordou, percebeu haver acontecido. Debruçada na relva e o corpo nu exangue, o outro perverso trucidara a moça... Ou fora ele próprio, seguindo a voz da sua mentalidade.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

SINAL FECHADO ===========


Caro zero. Calor de 35 graus... No trânsito moroso restava ser paciente e curtir o refresco da súbita aragem do crepúsculo. Ligou o rádio. Sentia-se todo-poderoso na máquina nova. Assim que possível instalaria um ar-condicionado.
"Devagar que se chega longe!" - Instruía o colante no pára-brisa. Até a gostosona da repartição reparou nele hoje. Pois é... Carrão último ano, algum dinheiro no banco, as mulheres já olhavam ele com outros olhos. Vislumbrava o horizonte nas frestas estreitas dos edifícios.
De repente alguém trancara o cruzamento. Confusão. Buzinas. Sinal verde... Vermelho, outra vez. Nisso uma mulata estonteante veio na direção dele. Panfletos de condomínio a tiracolo, verdadeira miragem em meio ao caos. Ficou aliviado que não fosse uma daquelas crianças que pedem esmolas nos semáforos... Debruçou-se sorridente na janela expondo aquele decote profundo. Mal teve chance de elogiá-la. Sem pestanejar a moça sacou de uma pistola rendendo Furtado.
Ordenou que parasse num lugar ermo. Vasculhava-lhe os bolsos numa revista que quase o prostrara nu. Talvez fosse um exótico sequestro sexual, deduziu... Qual o quê!? Possessa danou ameaçá-lo de morte, subtraindo o relógio, estropiando a foto da mãe na carteira... Exigiu a senha do cartão. Ele emudeceu. Furiosa ela chutou-lhe os grugumilos. Desferia coronhadas em sua nuca.
- Fala, seu viado!... Senão, arranco teu saco e te entocho. - Vociferante prometia cumprir. Exausto, Furtado disse. Sequer enfronhado nos lençóis gostava de apanhar.
Horas mais tarde, a conta-corrente saqueada, foi solto numa estrada deserta. Sem lhe dar à mínima, a mulata sacudiu-o porta fora. E muito mais que a pele tinha o orgulho ferido.

ARDENTIA ================

                    
                              Envolta em sombras                                        
                              A sonata ia pelos nossos ouvidos
                              Na faixa predileta do meu disco.
                              Entre beijos sufocados numa frase
                              Silente gemeste sustenido
                              Uma pronúncia indescritível.

                                                    Procuravas meus fechos
                                                    E os castos botões,
                                                    Dum recato disponível.
                                                    Tateou-me num estudo
                                                    Lido por teus dedos íntimos
                                                    Por mim livremente conduzidos
                                                    Em minhas coxas frívolas.
                                                    Socorria-me os seios aflitos,
                                                    Imersa no brilho da tua íris
                                                    Espelhando-me solífugo demônio adorado
                                                    Num diáfano altar eregido na penumbra,
                                                    Naquela teia de luz
                                                    Que atava nossos abraços.

terça-feira, 22 de junho de 2010

QUESTÃO =================


De que me valeu
Esta trajetória
De homem reto,
Congênito perfeito
Se cresci um sujeito mutilado...
Bom das pernas
Mais ou menos cansado.

De idéias,
De trato fino
Muito papo furado.
Certas proposições matemáticas
Na minha cabeça
Demais subjetiva.

DIA SOMBRIO ==============

Dia sombrio aquele. De um frio glacial como nunca sentira antes. Sem conseguir afugentar o sono, as idéias permaneciam confusas. Obstinado feito um zumbi...
Ao chegar a redação do jornal estranhou não haver ninguém. Será que...!? O porteiro nem notara sua entrada. Acenou, todavia, o indivíduo deu-lhe as costas. Pasmo quis contestar mas não obteve êxito, ante o peso enorme das palavras.
"Darei o troco nele, quando vier me pedir favores..." - Conhecia o tipo. - "Oh, chefia, quebra meu galho! Não tem aí um qualquer?"
Nem viv'alma, além daquela solidão infinita. Melhor assim... Mostraria ao Editor ser capaz de produzir também grandes matérias. Há semanas investigava um furo de reportagem, que abalaria a política local.
Pôs os olhos no vazio em busca daquele parágrafo inicial. Por alguma razão detivera-se melancólico no porta-retrato com a mulher e os filhos. Instintivamente estendeu a mão para apanhar uma caneta, porém espantou-se que não consegui-se pegá-la. Nova tentativa... Estremeceu!
Só então reparou num jornal sobre a escrivaninha, entreaberto na página do obituário. Etéreo esvaiu-se abstraído naquela vertigem. Numa das notas de falecimento estava escrito seu nome.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

RELICÁRIO ===============


Deixemos cair as lembranças
Pela casa tropeçá-las
Indícios fósseis
De apaixonados instantes,
Arqueologia da nossa relação.

Há algo que buscar escondido...
A saudade de outras épocas
Nos escombros da mobília.
Por entre
As tralhas das gavetas
Bem guardadas,
Nossas ilusões perdidas.

INOCÊNCIA CAPRICHOSA =====

- Não sei por que tu veio bater aqui... - Foi a recebida recepção de boas-vindas na escadaria do cortiço. Já desconfiava... Dezoito anos mofando no presídio fazia dele um estranho.
- Velhas mágoas, cunhada... Você vive demais do passado. - Acrescentou ele, desvencilhando-se ao subir alguns degraus.
- Tem lugar pra você não. Quando minha irmã era viva até podia ser.
- Se esquece que meu tio é dono disso aqui?... Eu já tô. - Volveu do topo da escada, não deixou de reparar na jovem às costas dela. - É cria tua?
- Que te interessa!... A tua tu deu pra outro criar.
E se instalou na antiga despensa. Logo a moça atraiu-se pelo desconhecido. Sobre quem a mulher mantinha silêncio, o cenho franzido. Conversava horas trepada no corrimão, divertindo insinuante o novo inquilino. Lera numa revista o caso de certa garota que namorara um homem bem mais velho. Fazia prosa duma suposta maturidade. No modo atrevido de ajeitar o penteado pondo a nuca a descoberto. Fazendo-se confidente dele, cujas melhores intenções divagavam naquela visão estonteante.
"Taí... Um bom-bocado de lamber os beiços! Apetitosamente virgem..." - Quase sempre interrompidas pelo aparecimento da cunhada.
- Rapa, moleca! - Então abordava-o. - Pensa que com esses olhos sonsos tu engana alguém... Vai, perdeu a noção do perigo? - Ameaçava ela deixando transparecer o revólver sob a roupa, com o qual defendia sua posição no bordel.
- Ela não tem o teu jeito. Puxou nada dessa tua laia.
- Não é pro teu bico... Nem pense desgraçá a vida de outra.
- Ciumêra besta, Graça.
- Ciúme de um ladrão de bosta?
- Eu que num tou nem aí pruma cafetina de puta pobre!
- Se assanha pra ver.
- Vai que eu possa pagar...
Retornando numa madrugada, Graça estranhou a menina não estar no quarto. No fim do corredor percebeu a luz acesa, uns rumores vindos da despensa. Temeu cada passo... Ao abrir a porta do cômodo viu o cunhado entre as pernas da ninfeta. Ele recuou. A jovem cobriu-se como podia atrás do travesseiro.
- Essa é tua filha, maldito! Teu sangue! Teu sangue!! - Berrava descarregando a arma no peito dele.  

sábado, 5 de junho de 2010

(RUBRICA NO COTIDIANO) =====


         Ali banhado na luz disfusa da primavera
         Um belo cenário para o prólogo citadino.
         Num ato único dramático
         Sustem-se no nada
         A parábola da ponte -
         Destinar-se...
         Carros que passam por cima,
         Barraco de tábua embaixo.
         Em cena aberta
         Pública
         Pronta para o aplauso.

         Epílogo trágico
         No entanto,
         Poético.

CIRANDA ============

A história se repete... Naquela máxima drummondiana: Cibele amava Rafa que dizia amar Pati que "ficava" com Rodrigo que não amava ninguém. Se é que alguém consegue desvendar o amor...
- Ai, Rodrigo...! Cê fica me apertando.
- É carinho, boba. Num gosta?
- Num é que não gosto. Olha só a minha roupa...
- Pôxa, Pati! Tamô numa boa, e você cheia de não me toque.
- Foi mal, gato. Sem querê.
- Jura... É que fico louco perto de você. - E lá ia a "mão-boba" passear nas suaves curvas, nos picos enregelados daqueles montículos salientes.


- Socorro, Virgem santa... Isso me dá um calor!! - Apartava-se temendo a vertigem. - Oh, meu Deus! Que coisa é essa aí embaixo?
- Desculpa, não consegui controlar.
- É tão... Assim tão...
- Você tá tão esquisita hoje.
- Tamem, né!
- Eu não sou de ferro, tá bom... Qué fazê?
- Fazê o quê!?
- Ora, Pati... O que um casal de namorados faz.
- Ué! A gente já tá se beijando.
- Num é isso! Qué dizê, é isso também. Aquilo, entendeu...
- Nessa posição... Em pé?
- E tem outro jeito! Aqui no escurinho quem vê?
- Ah, não... Cê podia me levá num motel.
- Menor não entra nesses lugares.
- Então, quando eu fizé 18.
- Até lá, Pati... Eu não guento! Vamo tentá?
- Só se for com camisinha.
- Camisinha!... É o mesmo que chupar bala com papel.
- Como cê sabe!?
- Sabendo, oras! Mas se você tiver camisinha aí, eu topo.
- Ficô doido! Se meus pais encontram esse troço na minha bolsa tô frita.
- Te amo tanto, princesa... Vai, deixa. - Suas bocas se procuram gulosamente, sem dar chance às palavras. - Só um pouco...
- Ai, Rodrigo... Tô arrepiada!
E o ato consuma-se ali mesmo nos arbustos, juntinho ao muro do prédio. Nem pensaram em gravidez, aids, o que fosse. É estranho que no amor, a gente não pense em se proteger um do outro.

domingo, 30 de maio de 2010

DESENLACE ===============









Meu corpo teme o teu
pelo refúgio que propicia.
Minha boca pasma porque consente
teus sins e nãos.
Meus passos vacilam
pois temo o regresso...
Esse coração só faz contradizer.

A DONA DO CHAFARIZ ======

Maltrapilho, as esperanças de amor para ele definharam. Todavia, por obra do destino possuía nos braços a misteriosa amante. Envolvidos pelo silêncio noturno da praça, sob a penumbra azulada do monumento.
Corpo singularmente talhado, ela se deixa acariciar lânguida, os mamilos rijos, entregue à mão buliçosa nas ancas firmes. Sussurrados gemidos a confundir-se com o  plangente arrulhar dos pombos. Sem se incomodar com o seu roçar imundo das sarjetas, nem ele com o suor limoso da pele dela. Naquela estranha conjugação ambos pareciam fundir-se.
Inúmeras ocasiões atravessou-lhe o caminho, sem jamais notá-la. Nesta noite única era como se ela sempre o aguardasse e estivesse ali a oferecer seus doces préstimos. Bêbado, tudo que lembrava foi ter tropeçado aos seus pés.
Estremeceu ao deflorar o vão casto entre as pernas. Satisfeito beijou-lhe o sorriso fixo, enquanto a ninfa de bronze repousava despida no véu de águas do chafariz.