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sexta-feira, 20 de junho de 2014

PARADOXO ============





O Humano demasiado,
matáfora do Universo
sobre todos nós.
Medida imprecisa
das coisas.
Maravilhoso
e perverso,
condenado por suas
justas razões.

"JÁ TE FALEI, MALANDRAGEM!..." =====

O cara dizia que me daria uma letra. Descolado num monte de mutretas, quásquásquás!... Vire e mexe tomando sacode.
Eu filmo ele. Tou de olho na "fita" dele. Eu manjo o figura. No bairro que o viu crescer, sabiam da sua real possibilidade. Mas ele achava que tinha talentos e podia mais... Nada disciplinado, pelos campos da várzea por "canelar" a vida se via um craque do futebol e nisso alimenta seus ingênuos sonhos de sucesso... Aquela puta sorte!
Da escola aprendera alguma leitura, porque quem ensinava o proceder eram as leis do mundo. Acostumado nadar contra a maré, contudo se sentia um peixe fora d'água... Mangueia sua existência pelo cotidiano dos bares e recantos urbanos.
Deu uma espiada no tablóide popular gratuito da barbearia, afim de conferir o Caderno Policial e os entreveros da "Família"...
- ...Na cadeia tem uma placa assim, morô: "Carceragem - Não entre."... Só se o bandido não soubesse ler! Como alguém quisesse perder tempo ali!? - Oportunidade para refletir suas máximas e dar aquela boa olhada na "gostosa" estampada numa das páginas, demais amarrotada por passar de mão em mão. Entediado da punheta vendo vídeos pornôs pirateados.
- Hoje tem navio, malandro! - Alertava os trutas na sbórnia sobre a estiva no Porto. Mas ele está pronto mesmo era prum "avião". Naquele dia nenhum teco... Dispara na velha bicicleta esquivo da averiguação das viaturas. Uma vez na mente se livra do flagrante, sem muito dispensar...
O negócio dele era garantir o seu. Ainda que não lhe dessem um centavo. Todavia, nem por bancar o esperto, lhe sobrava tanta esperteza. 
Sabe que põe o pescoço à risco. Chega apresentando uma jóia num embrulho, dizendo que é ouro e vende a preço de banana. Quem quer comprar ouro de tolo?... O dono do bar percebendo ser verdadeiro, diz ao cujo que aquilo é bijuteria. Golpe do malandragem acostumado nessa. Só pra comprar a dita fácil, não vale pois quilate... O marginal vira-lata passa a mão nuns cobres garimpando seu quinhão. Garantido o salário, vendeu barato o otário que a palavra não tinha valor.


domingo, 4 de maio de 2014

CRÔNICA QUINTA NA BIROSCA =====



Por que não ser querido?
Se feio não era,
Nem outra qualquer deformidade.
E ainda que contivesse
Aquela alma fêmea
A debater-se nas vestes masculinas,
Seu desejo entre iguais
Por sentir não o diferia...
Chorava suas mágoas num copo
On the rocks no seu caminho.
Malgrado todo esforço de ternura,
A mais "piranha" não competia...
Agarrou-se aquela máscula braguilha,
Salva-vidas de tamanho desespero.
O macho de saco-cheio
Pondo fim a relação
Encheu-lhe de sopapos,
Rudes carícias.
Mas, o hematoma era só
Uma marca aparente
Sobre a dor.  

"UM DIA DE CÃO!" ========

Odiava preencher relatórios, formulários. Explicar-se ao Delegado como um meliante, questionada sua conduta. Ser incriminado por aquela jocosa fatalidade. Alguém atrás de uma escrivaninha reconhece as dificuldades do trabalho nas ruas?
A cidade vivia agitada com alguns crimes. Os âncoras do noticiário policial em nome da audiência clamavam Justiça a todo custo. O Comando pedia resposta rápida, tolerância zero. Não se foge a responsabilidade.
Meu parceiro no meio do expediente tivera um desarranjo estomacal, ficou em observação no P. S. Por isso não me arriscava comer nada de ambulantes na calçada. Uma espécie de gentileza oferecida pela proteção dada. Nesse mundo cane é preciso ter estômago.
Por volta das 18:22 h., eu dirigia patrulhando já de retorno para o fim do turno. Caía aquela garoa fina, mesmo com o pára-brisa acionado gotículas cintilantes atrapalhavam minha visão, decerto o desembaçador funcionava mal. Uma voz feminina pelo rádio da viatura alardeava ocorrência.
No início do quarteirão à frente havia uma loja de animais, ia trafegando quando vi no estacionamento sair uma caminhonete vinho e o que parecia notas de dinheiro voando, o motorista desesperado por pegá-las... Como iria adivinhar que tinha sido o troco deixado sobre o painel!? Aquilo só me despertou suspeitas. Uma coisa é certa, nessa profissão a gente aprende, nem todo mundo é tão honesto quanto parece.
Fechei o veículo, então dei voz de prisão e o indivíduo de mãos para o alto, assustado abriu a porta... Saiu ligeiro de dentro um cachorro grande, maior que o normal.
O animal saltou com suas patas em cima de mim. Rodopiou. Fazia uns sons abrindo a bocarra, mostrando os dentes... Arrghhh!! Uf! Uf!... Au!! Au!! Au!! - Fora de controle. Era da raça Bernese, soube depois. Considerei hostil. Um único tiro. Soltou um ganido doído e caiu.
O tal sujeito uivava desconsolável, como se tivesse perdido um ente querido. Quis dizer-lhe, entre lá e compre outro... Eu pago! O que deu nele? Sentira odores estranhos da minha colônia vencida, ficando excitado sob o efeito anestésico para o tratamento dentário?
Nunca passou pela cabeça colocar a sociedade em perigo. Apreenderam meu revólver. Agora olham para mim com essa cara de poucos amigos... Mas quando o "bicho pega", querem me atiçar contra os outros. Me pergunto se deveria recorrer aos cães para ter um amigo fiel. Acho mesmo que necessito dumas férias.
    

quarta-feira, 2 de abril de 2014

ARRANJO FANTASISTA ======


A Natureza Morta
Está viva de frutas maduras
Para que dure sempre
Na lembrança
De íntimas coisas
A existência palpável
Seu gosto palatável.
Do perfume imóvel
Das flores extintas.
Lindamente seres abatidos
Do matiz incorpóreo
Que nos despe.
Quando tudo estiver morto,
A arte há de realizar nova vida.


O MOTORISTA DO FUSCÃO PRETO =====

Aquele blecaute já durava mais de horas. Noite adentro a cidade anda às escuras, semáforos cegos, olhos-de-gatos furtivos acendiam na escuridão.
Um estranho dirige seu Volkswagen Fusca preto premeditando no breu das ruas. Numa e outra esquina, o halo vermelho dos giroflexes das viaturas policiais tingiam a figura sombria dos transeuntes. Pela extensão vaga da avenida o farol rasga a paisagem noturna...
Quem é ele? Um anônimo. Embora retraído até casou-se. Malogrado, pois era dado a poucos afetos. Agora vive terrivelmente solitário. O vulto no esquecimento urbano.
Há muito povoava seus pensamentos cometer um assassinato. Alguém desconhecido. Talvez, um desses maltrapilhos inúteis. Somente para vê-lo morrer.
- A quem esse trapo poderia fazer falta?... Estão sempre a espantar as pessoas. O infeliz mesmo deixou claro sua não serventia ao mundo. - Conversa com o reflexo no retrovisor do carro.
Já tomou sua decisão... Lateja-lhe o sangue nas têmporas. A transpiração escorre sob o terno que veste. Optou pela esganadura, eficiente, silenciosa... Bêbado e debilitado não teria o farrapo humano forças para resistir. Esse homem age por compulsão incontrolável. Tomado dum instinto predatório. Está disposto a descer ao esgoto do seu íntimo para saciar suas perversas vontades. Queria ouvir o coração batendo desesperado por vida, um último suspiro. Conter o derradeiro esforço daquele corpo... Igual quando moço afogava filhotes de bichanos no lodo dos charcos.
Nessa mesma madrugada deserta esgueira-se sob a luz da lua, sorrateiro pelas sombras... Empunha uma gravata tesa entre suas mãos. Mais adiante um mendigo dorme sozinho, presa de seus próprios sonhos de fartura.
Enquanto apertava, o sujeito se perdeu nas órbitas interrogativas daqueles olhos esbugalhados. Suas narinas queimam com o cheiro acre intenso de suor curtido... E ao largá-lo inerte, vem uma súbita náusea a revirar-lhe as tripas.
Por fim recuperou-se... A sensação é prazerosa, endireita a imagem no espelho retrovisor. Nosso predador promete a si mesmo caçar por aí, nas trevas da cidade outras vezes mais.   

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DOLOSO =================

               Por causa                               Amei outras vezes
               Dessa sua maneira                Tantas quantas pude,
               Confusa de amar                    Entrega unilateral.
               Manual de teorias                  Desconfiava disso
               Postas em prática                  Quanto mais
               Foi que demos nisso.             Restou-me o vazio.

               Cobra de mim                         Você segue sentimentos
               A tua incapacidade.                Estabelecidos:
               Contradiz                                 Encenação apaixonada,
               Legítimas justificativas.           De início.
               Fazes bem o papel                  Calculista na despedida
               De vítima.                                 ...!?

                                   O amor é o tipo de coisa
                                   que só descobrimos a doçura
                                   e o amargo experimentando.
                                   Quem há de compreender
                                   esta escolha
                                   dada por "azar eletivo"?

                                   Devia naquela hora
                                   ter despertado a cidade,
                                   acusar-te de perjúrio...
                                   Feito sim, caso de polícia:
                                   - Venham ver como foge
                                   entre quatro paredes
                                   este amor bandido!

Pra quê... choraminguei a ocorrência.
Dos crimes do coração somos todos absolvidos.

BENDITO FRUTO ===========

Tanto que pediu ao Cristo na missa pela sorte do menino, livrar ele dos descaminhos do mundo traiçoeiro.
Antes Cleson vendia tapioca no centro da cidade a mando da mãe. Pra garantir algum mantimento pra casa. Tapioca dava pouco... Quis adiantar  o seu lado. Entrou pro tráfico. Vendia drogas.
- Sai dessa vida, Cleson! Isso dá cadeia!! - Insistiu. Ela não sabia onde tinha errado.
Outras vezes de combinação com os pariceiros, deu pra tomar o que é dos outros. Até entrava nas lojas do shopping torrando nota de $100. Querido pelas novinhas piriguetes da comunidade. Meteu algumas mais atrevidas em sua piroca de michos pentelhos. Botou banca na "quebrada".
Naquela tarde chegaram os policiais, sobem o morro. Arma em punho, é o seu cartão de visita... De olho na "fita", Cleson, ligeiro larga a lata de refrigerante. Mandou um assobio de alerta pros "trutas". Sacou do .38 enviesado na virilha... Foi coisa de filme. Trepou uma lajes. Desceu nos fundos duma birosca, nem pediu licença, saltou a mesa de sinuca espalhando o jogo... Ele já vazava a porta da frente.
Bem na subida pelo lance tortuoso da escadaria. Em direção dum beco estreito. Sua mira era míope ao alcance da certeira do "bota"... Perdeu no bang-bang.
Quis retornar, era tarde. Morreu sentado no batente do boteco, cabeça pensa no peito, a mãe ao seu lado conversa com ele como se ainda estivesse vivo.
- Você não ouve!... Desobedece o que a gente fala. Eu devia ter te dado uma surra, Cleson!... Por que fez isso comigo, filho!? Você disse que era só até juntar dinheiro. Acabou ficando sem nada... E ainda rouba meu juízo. Eu falei tira essa coisa da cabeça... Se matar por dinheiro!... - Gesticulava atarantada. Do alto, o helicóptero da reportagem flagra o fato.
Um tiro acertara bem em cheio o logotipo do seu "pano de grife".
- ...Eu falei pra ele não ir mais, gente... Olha o que aconteceu! - Murmura seu lamento. - Não foi isso que sonhei pra você. Não bastasse dar tudo errado pra mim, contigo foi pior, Cleson... Será castigo? Eu  que queria te ver homem formado. Até uma cadela velha feito eu merece ser feliz... - Queria abraçá-lo, não permitiam alterar a cena do crime. - Tu até podia não prestar, mas eles não tinham esse direito... Por que fui te botar no mundo? - Sangue escorre e suas lágrimas pingam em cima. Ele espuma coca-cola pela boca.

domingo, 27 de outubro de 2013

NESSES RABISCOS... ======


                                   Por toda parte
                                   Me declaro
                                   Até que chegue
                                   Aos teus ouvidos,
                                   Aquilo que pretendo
                                   Te dar sem igual.

                                   Perto de ti emudeço
                                   Porque tudo é muito e nada
                                   Para exprimir-me.
                                   Palavras apenas
                                   Não haverão de convencer-te
                                   A render-se à absurda evidência.


ENTRELINHAS =============


- ...Alô!
- E aí?...
- Reconheceu minha voz?
- Pelo identificador de chamadas.
- Estranhei o seu silêncio comigo.
- ...Fui intimado para depôr.
- Você contou a verdade?
- Claro que contei.
- Eu sabia...
- A verdade logo ia vir à tona.
- Disse que eu não estava lá...
- Não, que nós  naquele dia estávamos.
- Você ao menos...
- Como podia mentir por você?
- Por que não me perguntou antes?
- E atrair toda desconfiança sobre mim...
- Bem, isso só prova que eu estive lá.
- Se tivesse me dado ouvidos!...
- Sossega... Não vão encontrar coisa alguma.
- Escuta, negar era pior.
- Bastava não lhes dar certeza de nada.
- Podíamos ter avaliado melhor as consequências...
- Alguém tinha de sujar as mãos.
- Foi um erro...
- Do qual você também se beneficiou.
- Já me arrependi... E você precisa aceitar isso.
- Estamos juntos nessa...
- ...!

domingo, 22 de setembro de 2013

ETERNO RETORNO ==========

               
               Isso que alguns chamam
               Este voltar
               Para os braços de um deus...
               Posterizar-se. -
               Passamos muitas vidas
               Repetindo erros
               E com eles, algum acerto.
               O Homem é seu sofrer,
               Constrói um Mundo...
               A delícia que busca! -
               É retornar
               Para a gota da chuva,
               O húmus da Terra,
               Um outro ser.
               Todo existir.

DAS PROFUNDEZAS DA ALMA =====

Os operários encaravam mais um turno de trabalho. A Ordem de Serviço indica que o reparo de solda no duto continuaria, num espaço confinado. Uns doze metros de profundidade. Estavam escalados para a tarefa, Abílio e Fidélis.
Um ficaria no Rádio HT. Monitorando gases, exaustão do ambiente. Enquanto outro desceria ao sombrio e claustrofóbico compartimento...
Abílio tinha toda consideração do Encarregado. Queria prosperar nos quadros da fábrica. Viver junto de Susana. Porém, ela em conflito com seu coração... O ciúme tem uma flecha preta.
Conhecera o colega no trabalho. Fidélis, excelente profissional. Muito competitivo querendo tirar de qualquer situação, um prêmio. Foi fácil fazerem amizade, até torciam pelo mesmo time. Durante certo período frequentou a casa. Ia nos domingos de folga visitá-los, preparavam pratos elaborados e assistiam o futebol. Solícito prestava pequenos favores ao casal...
Entrava-se interior adentro dos intestinos metálicos da fábrica por uma abertura diminuta num cilindro horizontal e descia-se noutro tubo ligado a um compartimento bifurcado por duas enormes válvulas. Parte do percurso havia uma escada estreita tipo "marinheiro", o restante numa corda de mecanismo trava-queda e içamento.
Por mais de 1 hora, feixes radiantes relampearam em clarões ultra-violetas alumiando os túneis.
- QAP, Fidélis... Tá me ouvindo?
Antecipa-se o ruído estático do rádio comunicador.
- Prossiga. Qual é o QRU... O que manda?
- Tudo normal aí embaixo?
- Nada diferente... Foi esse o QTR, combinado pro lanche?
- Precisei interromper seu QRL. Tenho de conferir, Ok!
- Em QRV, parceiro... Disponha!
- Sabe que sou responsável por tua vida,QSN? Fui claro?
- QSL, Abílio...  Tou ciente disso.
- E você anda sumido, né.
- Seguinte, como tá o QSA do meu rádio?... Recebe bem! Me parece QSD... Defeituosa, câmbio.
- Me contaram que você tá de namorada nova.
- ...Não copiei o QSM... Repete o câmbio.
- Pode falar, o QRG é nosso. Só tamos nós nessa faixa.
- Tá havendo algum QSB... O meu, ou o seu rádio... Tá falhando.
- Vai esconder segredo do amigo... QSN?
Fidélis levou algum tempo para pressionar o botão de câmbio.
- ...Não é nada sério.
- Se eu bem te conheço.
- Preciso acabar logo... Ou não saio... Deste buraco hoje.
- Tô em QRX na frequência, Stand  by. Se precisar, é só chamar. Ok!
- TKS... Valeu!
Fantasmas de sombras dançavam à vista do agora soturno Abílio, seguido do retinir metálico do martelo através da tubulação.
- QAP, Abílio... Na escuta?
- Positivo, QAP.
- Algum problema... Aí em cima?
- Queimou um fusível da máquina... Coisa rápida.
- Parou de funcionar... A exaustão! Acumulou gases aqui... Cof, Cof, Cof!!!
- Quer que chame a Susana pra te salvar?
- Que QRI é esse!?... Não tou gostando do tom da conversa... E pouco trabalho.
- Ué! Não gosta dum papo ao pé do ouvido?
- Conserta logo... A porra do equipamento!... Vou subir!
- Como?... Eu destravei o cabo.
- Deixa disso, merda... - Fidélis engasga. - ...Eu tou ficando zonzo, cara!
Sem que nota-se, Abílio desceu uma mangueira e instantes atrás liberará gás acetileno.
- Se fosse você, não tocaria por nada o eletrodo no metal...
- Eu não resisti, cara... Foi mal!...
- ...Uma fagulha e vai ser uma morte pior ainda.
- Vou mudar de QSY... Seu cão dos infernos!... Argh!!... E te denunciar pra Chefia... No outro canal...
Antes de responder, ouve mesmo a respiração forçada do colega.
- Você acha que tem alcance? Te dei um rádio com bateria fraca.
Algo parece cair lá debaixo ainda transmitido via rádio. O barulho intenso do maquinário abafa seus últimos pedidos de socorro. Acionada a enfermaria, informam estar em QTY, dirigindo-se ao local do acidente. Somente agora religou o exaustor. A fábrica segue seu ritmo.

sábado, 24 de agosto de 2013

MENSURA =================






Amei,
Fui amado
Até me tornar
Odiado.
Das carícias
À hostilidade
Com a mesma
Intensidade.

O BASTARDO ==============

Foi após saber da morte de meu pai, é que me deparei com a carência que as outras pessoas sentem de consolo... Um tio preparando em tom solene informa, como a engolir uma palavra trêmula deixa escapar a notícia fatídica.
Tudo que fiz foi vasculhar vertiginosamente no meu íntimo por instantes, à procura de uma lembrança afetuosa dele dentro de mim. Pouco nos víamos, eu morando anos na Capital.
Esse parente ensaiou um abraço... Titubeou. Como a desejar chorar comigo a desgraça maior da perda. Via nisto uma maneira de aliviar meu pesar. Não existir me é estranho e temível, mas chorar está aquém de minhas necessidades. Mesmo espremido. Atado aqueles braços impotentes... Eu deveria dizer, "obrigado", por meu pai ter morrido? Calei-me num silêncio tumular. Então, se pôs a falar. Insistiu que fosse ao enterro salvaguardar meus interesses. Porém, aturdido quase não o ouvia.
Um domingo de Verão. Mormacento. Todas as coisas na atmosfera pareciam se dissolver... Meu último dia de folga. Sequer garantia uma desculpa no escritório. Quem sabe alegasse na Segunda-feira uma profunda depressão... O ônibus vai engolido pelos túneis da Serra do Mar.
Ele somente reconhecera a paternidade acossado pela Justiça. Quando quis me conhecer disse: "Você não deve ser dos meus. Parece fracote..." - O velho reprodutor oportunista. Assediador de "domésticas" em busca de um lar. Eu caí... E eu mesmo, me levantei.
Cheguei às pressas... No Litoral a umidade combinada às altas temperaturas castiga a carne humana. Toda a medicação inútil fermentava dentro dele. Podia sentir escorrer da minha nuca o suor. Velaram depressa porque naquele dia fazia calor. E o velho apodrecia.
A cabeceira do morto a distinta família. Dois meio-irmãos e a matrona viúva, uns agregados... Um limbo solene. De ambiente denso perturbava o olhar e as idéias.
A morte revestia o verniz dos seus erros. Um desses equívocos humano se movia sobre a terra... Já me olhavam como um inconveniente herdeiro, com direitos à mísera fortuna. Bastava saber que era um intruso. E talvez, estivesse lá só por isso. Para espoliar os restos mortais do velhote.
O corpo desce ao túmulo. Mais uma cova rasgada incerta na terra úmida, do que propriamente um lugar de descanso eterno. Sua família roga a prece convertida em pranto. Pelo terror do destino ilusório.
No entanto, nada de lágrimas por trás dos meus óculos escuros. O disfarce de uma tristeza aos olhares inquisidores duma platéia perplexa da nossa fatalidade comum.
Colocamos a sua lápide sobre tudo isso.

terça-feira, 11 de junho de 2013

MIOPIA ==================





Amor à primeira vista...
Reparasse melhor
Não amava 
Quem cegamente amei.



PURA SORTE ===============

Como o povo dizia, os apartamentos ali construídos ao lado da comunidade não eram assim palacetes, muito por conta dos superfaturamentos da construtora, desvios de verbas da obra. Pois político é raça que manobra a gente!... Porém, em vista dos barracos apinhados tornaram-se a cobiça de cada família.
Largada do marido, para criar os dois filhos fez não sei quantos cadastros no serviço de ação social... Passara muitas tragédias, enchentes no bairro, os riscos de incêndios a se alastrar pela favela. Pra quem acha que o ruim pode ficar pior, os desabamentos do morro se repetiam, arrastavam móveis e vidas.
Quando ameaçava a chuva, a espera não vinha com romantismo. Nada havia de mistério nos relâmpagos, mas presságio. Não se distraía com a água despejando da calha. Não aquietava como os bichos, o vira-lata embaixo da mesa, os pardais nos "pés-de-cuca", o bichano no caibro da cumeeira... O céu desabava. As fotos da família carregadas pela enxurrada. O paradoxo de nada ter, e perder tudo! Deixava-lhe sem rumo e nenhuma cidadania.
Vinha a autoridade se condoía dela, punha numa fila de espera, depois retornava ao conforto do lar imune as intempéries da vida... Perdera a filha num desses ocorridos, ao tirarem do escombro o corpinho parecia uma boneca escangalhada coberta de lama.
...De repente como que por encanto, o homem anunciou seu número de senha ao microfone pra todo mundo ouvir. Ganhou o devido merecimento. Não lhe deserdara a sorte. Exorcizava a maldição da pobreza, a predestinação à ruína.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

NÓS =====================


                       Sofro se estamos apartados,
                       Nunca me falte tua pessoa.
                       É a ausência que me dá
                       A dimensão desta sua presença...

                          O roçar das nossas peles,
                          Conversa trêmula de desejos.
                          Seu cheiro, perfume espalhado,
                          Saboroso suor que escorre do teu torso.
                          A certificar-me duma lealdade
                          Que profere sua língua
                          E leio no teu corpo
                          Esta declaração de amor,
                          Que o beijo confessa na minha boca.

                       Usufruir como bem quero a plenitude
                       Sendo este o bem que me dá,
                       O mal que me faz.

CORREÇÃO MONETÁRIA ======


Trabalhando no banco tantos anos adquirira a confiança dos seus superiores. Se atinha rigorosamente aos procedimentos técnicos. Fazia valer as diminutas cláusulas dos contratos. Não poupavam-lhe elogios embora não subisse na carreira.
Abnegada dedicação merecia uma recompensa. Mudara de vida. Reformou a casa no bairro pobre, circulava majestoso em seu carro do ano.
Bem se sabe a inveja desponta o gosto pela maledicência, intrigas. Que sua ascenção era fruto de pequenas fraudes.
Um dia durante o expediente, o chefe deposita sobre o tampo da mesa uns papéis... Trocara num documento, R$ 170,00 por R$ 17,000 mil. Titubeou constrangido, mas não desalinhou o terno. Folgou o nó da gravata lilás perolada e fixou-se dificultosamente naquelas cifras.
- Devo ter me confundido com os números... - Justificou irônico mediante tal probabilidade, ou dezessete mil possibilidades. Perante si mesmo ninguém reconhece culpa de fato. Afinal, tinha suas plausíveis razões. Era uma fração mínima comparado ao que amealhava todos os dias os cofres da agência bancária.
Retirou então, algo da gaveta:
- Preciso usar óculos, aqui está a receita médica. - Esclareceu ele.

terça-feira, 2 de abril de 2013

RESCALDO ================

                                                         
                                                     Queima meu peito
                                                     sob as cinzas
                                                     dum amor
                                                     mal-apagado.
                                                     Cria brasa
                                                     e novamente se incendeia
                                                     no fogo da paixão.



TACIATÃ AVAETÉ ===========

No princípio eles mangavam:
- Tá enrolando a língua por quê, Índia?... Fala direito! - Querendo civilizar Capotira.
Foi num lítígio de terras brasilis sucedido. Os fazendeiros, o garimpo, as madeireiras vorazes tangeram a tribo de suas tabas. Índio não merecia terra nenhuma. O chão pisado primeiro, nem a sua Reserva, seja a emprestada pelo branco. Era sempre expulso.
Mocozou-se ali com os turis, entre as malocas trepadas na beira do rio. Cercada duma gentama branquelada filharada da mandioca, mais os filhos do carvão por acá largados.
Já nem faz artesanato, colares, chocalhos, cocares com as cores da jandaia. Vive de biscate, de vender sorvete e tapioca. Catar ferro, plástico pras indústrias de reciclagem. As duas cunhatãs desafloradas a servir no acostamento da BR as vontades de carne duns caminhoneiros.
Na palafita brincava o pyá, fruto do estupro sofrido dum Pastor. Seria este o paraíso cujo missionário lhe prometeu?... Outros tingas foram lá, estudar índio, querer ser nativo, pintar a cara. Mas índio não quer sociedade de branco.
Se das andanças matuta, repouso no giral, afastava a mosquitada a fumear cigarros Hollywood remeninando a aldeia.
- Antes não via carro que nem agora. Corria onça, tapir, jacaré, tracajá, tatu embrenhado mato dentro... Eita! Assim fucinhando carro noutro nas costas da avenida cobrejando feito sucurí. - Contava as cunhatãs sem muito da língua nativa.
Difícil de acostumar sossego. Também não se anda nu. O peró trouxe a moral e a vergonha, vestes, presentes, bons costumes, doenças venéreas... Entregue ao cauim pestilento das biroscas, a caninha Pitú toma conta, queima barraco, descamba sururu e morte, pois findou seu companheiro espetado numa "peixeira".
Sumiram os pipilos, piados, cuquiadas, roncos, esturros da bicharada. Bem além das taperas urbanas gritavam buzinas, guinchos de engrenagens, o ruidejar das máquinas. Nalgum lugar atacava Piaimã, gigante comedor de gente nos seus domínios, sem ligança pro deus caraíba pregado na tábua.
Restou-lhe da floresta, a selva de pedra. Ficava jururu que nem sapo cururu em lagoa seca. Se nem podia mais passar o dia na rede mastigando beiju. Era um tal caçar em vitrines, prateleiras, balcões... Quem dera apanhar a gostosura dos cajás, cajamangas, jaboticabas, genipapos, sapotis, pupunhas, um naco de gosto bom da vida.
Quando o sol escurenta, Tainaçã vagalumeia arriba do horizonte de prédios vinha um desgostar, o desejo amargoso de subir pro céu num cipó.
- Brasileiros somos nós. Esses aí, gente que veio de Portugal. - Queixava-se as cunhatãs bronqueada mode a brabeza caraíba.