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segunda-feira, 14 de março de 2011

18:00 h. ================

                               Range a sinfonia díspar
                               que se escuta nas sombras
                               como assim fosse
                               um dissonante clamor.

                                                 Do veículo sem saída,
                                                 deste bicho aflito
                                                 nas vielas sinalizadas do existir.

                               Desconfiado de que a existência anônima
                               nomeie, conceda status
                               no destino de uma bala perdida.
                               Seu sangue pelos poros do asfalto,
                               tinta para a crônica policial das seis.

                                                Esquivam-se os espectros que trafegam
                                                pelas veias das avenidas.
                                                Cada qual a ocultar sua alma.

                               Quando a noite escorre do céu
                               derramada sobre o ocaso vesperal
                               ecoa da catedral as exéquias do dia,
                               desses moribundos transeuntes.


NOVIDADES NO FRONT =======

Oitenta anos...! "Praça" na Segunda Grande Guerra, os jornais puseram-no em alerta máximo. Sacudiu a velha farda gasta do baú. Com as tralhas improvisou uma máscara contra gases. Fez do quintal seu acampamento estratégico e montou guarda no portão de casa.
Noite e dia dava plantão, fuzil nos ombros vigiando o céu, atento ao movimento das esquinas.
Numa destas vigílias surpreendido pelo alvoroço no telhado, Seo Pacífico fuzilara o bichano persa dos vizinhos libaneses. Os demais amedrontados mergulharam janela afora achando que a guerra havia chegado. Ledo engano. Refeitos do susto quiseram a desforra. Ao soldado solitário restou entrincheirar-se fugindo do ataque aéreo de pedradas.
- Nunca ouviram falar em fogo amigo?... Covardes!! - Justificava ele. Erros de alvo aconteciam.
A filha veio às pressas. Adentrou o front. Pretendia dissuadí-lo daquela insanidade... Nenhum acordo. Ali ficaria até que vigorasse o tratado de armistício. Percebendo as manobras suspeitas da ambulância e enfermeiros a espreitar-lhe, abriu fogo na direção do veículo. Apavorada a Junta Médica bateu em retirada.
- Que peguem em armas aqueles dispostos a lutar pela paz! - Num gesto rude lustrou, usando o punho, a medalha ganha por bravura.

sexta-feira, 4 de março de 2011

QUARTA DE CINZAS ========

PIERROT
COLOMBINA
ARLEQUINO
MASCARADOS
APAIXONADOS...
RECEBEM AS GRAÇAS
DE MOMO,
É DE RASGAR 
A FANTASIA.

A FAMÍLIA ENLUTADA AGRADECE =====

Enlutada a família recebia contrita os pêsames. Quem supunha quão agonizante seria o suplício da velha matrona?... Era ela que zelava da educação dos netos e conduzia o destino dos casamentos das filhas. Sequer houve um pretendente que não tivesse passado pelo crivo dela.
- Larga mão... Isso aí é traste que não vale vintém! - Outras vezes repreendendo também o filho único pela escolha. - Tu se enrabichou dessa sirigaita, foi? - Não tolerava discórdias no seio familiar. Embora as arengas com o já falecido marido fossem resolvidas no tabefe.
No velório todos sentiam-se um tanto orfãos, mas daquela orfandade própria da autonomia. Cada condolência fazia confirmar a convicção de liberdade. Incumbidos do cerimonial os genros deixavam transparecer certa independência. Nenhum pedido que fizera a defunta foi observado. Sob o pretexto de que sairia dispendioso, ou irrealizável.
Dias antes do passamento à cabeceira do leito de morte, os herdeiros procediam o espólio dos bens póstumos. Havia quem pensasse que a eutanásia acidental daria-lhe enfim o descanso merecido.
- Me dá uma pena ver mamãe nesse estado...! - Cumpria-se que sempre fora clã de parcas posses. Juntos agouravam na expectativa da matriarca partir desta pra melhor.
À hora do enterro, reunidos para a oração do adeus alguém lembrou da aliança. Sua derradeira vontade, gemida no momento sacro da extrema-unção, rogava que fosse sepultada com o anel. Por ser em ouro maciço espicaçou-se veladamente a cobiça dos parentes. O primogênito não pareceu disposto a favor tão caro. Agarrou no anel, contudo nada dele desentalar. Muito discretamente apanhou um canivete e decepou-lhe o dedo, pondo a outra mão a ocultar o anelar faltoso.
- Psst!... Ela não vai precisar de bens materiais no além. - Um dos cunhados quis confortá-lo concluindo que iam-se os dedos, ficavam os anéis.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

MUSMÊ ===================

                                           
                                            Pois que a saudade dói...
                                            As dores quando saradas
                                            Com o analagésico
                                            Do esquecimento
                                            Permanecem letárgicas,
                                            Sussurrantes
                                            Num contínuo hiato.

GRETA JEAN ===============

Nascido de batismo Antonio Maria Durão, porém numa dessas ambiguidades da "natureza humana" descobriu-se Greta Jean... Seu padrasto maldizia, puta que o pariu era o cúmulo um filho-viado emprestado! Parentes que o viram ainda homenzinho, escandalizados. A mãe resignada vinha em defesa, pois sempre quis uma filha.
Greta decidiu sair de casa e viver essa sua identidade feminina. Resoluta foi morar num "quintal de cômodos". Aprendeu a ganhar o sustento nas esquinas correndo riscos, quando o pudor impedia as moças de família do lugar ou alguma forasteira desabusada, de virar prostituta... Puta conhecida e apontada! Complementava o aluguel fazendo unhas mais penteados das amigas, vendia lingeries...
...Desde o princípio percebera as coisas de viés. Esse notório estranhamento. Na escola chacota dos garotos por seu jeito frágil. Tempos depois, os policiais que iam lá ensinar bons costumes ao chutar-lhe o traseiro sensual. A sociedade que cuspia e atirava pedras a condenar pela sina escolhida. Repetidas noites que passavam de carro pela avenida e gritavam piadas
- Eu sou é muito macho, pra estar aqui!! - Subia nas tamancas cansada de ser enlameada. Greta Jean trazia no corpo as marcas do martírio: silicone, hormônios, depilação a laser, mega-hair... A própria borboleta do asfalto. Beleza incomum de formas feminis, pele dum caramelo aveludado, seios mamilosos, coxas bem torneadas, a bunda tesa atraente. Irresistível para alguns anônimos do sexo masculino.
O traveco sonhava com Milão, shows nas boates paulistanas, dias de glória no carnaval. Era de Virgem e queria encontrar um "bofe" de Capricórnio. Assim distraía as horas, entre cigarros e drops, naquele penoso aguardo da clientela...
Já pelas tantas da madruga apareceu Tião. Montado no seu bruto, castigando firme no freio a ar do possante "cavalo", calotas faiscantes na sarjeta... Uma cavalgadura de pessoa. Cavalheirescamente escancarou a porta do caminhão. Dentro da cabine tocava um dos sucessos da dupla sertaneja 'João Mineiro & Marciano', todo o painel luminescente, os ponteiros tesos estremecidos dos aranques do motor.
- Como é...? Tô cum apetite daqueles, Belezura! - Sorriso sádico no canto da boca, olhar faminto. Tião escorregou pelo banco de couro para o estribo do veículo. Só de calça jeans caída até a virilha, o torso másculo desnudo.
Greta estremeceu dos tamancos à peruca. O lumbago latente despertou em pontadas.
- Virgem nossa!? Donde saiu isso?
- Hoje quero variar. Fazer um troço diferente... Sexo animal, manja? - O caminhoneiro errante avançava o sinal empurrando a pobre boléia adentro, as fuças debaixo da mini-saia a morder-lhe as nádegas aflitas.
- Ai, meu Deus! Por que não nasci mulher? Todo mundo quer me ver pelas costas.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

INVERSO =================


contudo, só Deus está do meu lado.
Há muita gente por metro quadrado
a unívoca resposta:
Toma deste paradoxo
Homem, reticências!!
dúvida que se pergunta.
na sintaxe cósmica,
Este parêntese oculto
vulto axioma do parágrafo.
obedecer ponto e vírgula -
veste roupas, um linguajar adequado;
Imagem sem semelhança
paroxismo civilizado avesso.
(então dois [ínfimos] pontos),
no qual caminha a simiesca solitude
em descrente parábola
Um ponto advento
pela poeira do universo espalhada...
da divindade Acaso
pérola desprendida do colar
'Assim me parece a epopéia do planeta,

MISSÃO CUMPRIDA =========

Era na corporação seu refúgio. Fama de linha-dura, ali exercia dissimulado autoritarismo perante subalternos e civis. Do mísero soldo tirava o sustento e ganhava pretensos ares de importância para a sociedade. Distinções por serviços prestados tinha muitas na parede, lustradas semanalmente com orgulho pela mulher. Todas por ser um bem treinado "cão de guarda" do Estado.
Acima de qualquer suspeita resolveu exterminar os fracos, tanto quanto ele. Os únicos contra quem podia prevalecer-se e cuja vítima seria ele próprio, segundo atestavam os laudos do psicólogo.
Na calada da noite ele e o esquadrão põem seus disfarces para sair à caça dos marginais. Vingança justificada na sua impotência...
- Mas será o Diabo, que não pára de nascer bandido?... - Perdera as contas. A maioria das vezes o sujeito tremia de medo, então metia um pontapé.
- Só pra quebrar o gelo... - Conforme ele mesmo dizia. - Porque a chapa vai esquentar!
- Ai, ai... Senhor! Faz isso comigo não...!
- Vem cá!... Que papai vai lhe dar uma lição.
- Pelo amor de Deus, Senhor...
- E o malaco acha que Deus está do lado de um verme feito você? - De nada adiantavam remorsos tardios. Seu veredicto não tinha apelação.
- Atirou pra me matar, não foi? E só não matou porque errou. Logo, tenho o direito de fazer o mesmo... Mas não vou errar. - Missão dada era missão cumprida. 


segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

PRORROGAÇÃO =============

Se for tarde demais,
antes que a pressa
faça-te esquecer de mim
e leve teus passos dos meus
a me destinar uma estúpida topada,
deixa impressa a silhueta neste quarto
do teu corpo que haja partido
pra quando minha mão procurar inútil
um seio na blusa escondido.

Se não for tarde
e o monólogo mutilar o drama
me diz um punhado de nomes feios,
adjetivos do nosso convívio
pra que eu sinta
que eles não vêm de você
mas estão em mim...
Senão, fica
e irás mais tarde.

RACIO[CI]NAMENTO ========

A família ficou revoltada com Seo Severo. Antes mesmo dos apagões ele decretara o corte temporário da energia elétrica. Na verdade sempre foi um obsessivo em fazer economias, do tipo que não usa caneta pra não gastar papel. Alguns serviços da casa também passavam pelo racionamento...
- Pô, pai! Banho gelado nessa friaca...? Que papo brabo!! - O filho rebelou-se.
- Fique sabendo que os russos por tradição se atiram no rio congelando... E fazem festa!
O blecaute definitivo tinha horário determinado. Queria dar o exemplo. Depois da meia-noite quem quiser que tropeçasse na escada, ou enfiasse as fuças nos batentes das portas.
- Como vou ao banheiro de madrugada, mãe? - Choramingava a caçula.
- Os cegos fazem isso sem olhos. Por que você que enxerga haveria de se atrapalhar? Mora quinze anos numa casa e sequer consegue andar pelos corredores.
- No escuro?...
- Desde quando o caminho do banheiro é a direção da geladeira? Você devia fazer um regime, carreira de modelo dá muito dinheiro.
- Mãe!...
Com ele, "dura lex sed lex"! Ninguém entendia, mas sabia que era dureza... Velas nem por hipótese. Receava perder o único patrimônio que possuía num incêndio. A lanterna somente seria usada em caso de emergência.
- Pensa bem, nega... Nosso chamego no escuro é mais gostoso! - Insistia na tentativa de aliciar a esposa para o seu lado.
- Ora, tu mal acerta o caminho com a luz do abajur... Falta energia. Quem dirá no breu!
- Vocês são uns egoístas! Custa o sacrifício?... A pátria não merece os filhos que tem.
- Qual é, véio!? Dá pra deixar uma lamparina acesa no fim do túnel? - Era o filho saído do banho, tiritando de frio.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

RUÍNAS INTRANSPONÍVEIS =====


Nesses descaminhos do amor
que nos une a solidão
paisagem de escombros...
Lascinantes lembranças -
Teu sorriso glacial
Esse olhar frio
Nossas duras palavras
Minha lágrima contida.


LINDAURO ================


Quando conhecí Lindauro este muito me lembrou as disformes personagens da Literatura. Os deformados carismáticos criados por victor Hugo, Paer Lagerkvist e tantos outros. Destas misturas singulares compostas de meiguice e rusticidade.
As feições judiadas pela natureza, ou melhor dizendo, pelo coice de uma mula barranqueira na infância dava-lhe aquele aspecto abaulado. Seu falar um tartamudeado de sons, palavras dissonantes que ele utilizava como conversação. Não entendia-se bulhufas, o diálogo era deduzido. Ao comer percebíamos a confusão de dentes que tornou-se sua boca dilacerar os nacos de carne. Se pilheriavam dele, incapaz de contestar, ria bisonhamente de si próprio.
Mas, Lindauro em nada demonstrava desgosto. Dia após dia emergia dos entulhos da obra para o trabalho com um tremendo vigor, capaz de mover montanhas. Invejei-o diversas ocasiões. Jamais ouvi reclamos seus. Pois são felizes os parvos, rebentos imunes aos dilemas existenciais. Seguia cordato o roteiro que Deus fizera para ele.
Depois de uma semana árdua punha a melhor roupa, indo perambular nas portas da zona de meretrício atrás da felicidade. Que ele sabia colher por baixo das peças íntimas das prostitutas.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

OPOSTO ==================

             Nunca fui de dizer não.
             Achava que outros precisassem da concordância
             Que eu colaborava pensando positivo.
             Porém, alguns começaram a usar o meu sim
             Em proveito único
             Longe dos nossos interesses
             E a colocá-lo na minha escrita,
             Tornar minha vontade
             Soletrando ao meu ouvido.   
             Então... Eu disse de uma vez, que valesse por todas:




    '- NÃO!'

SAI, CAPETA! =============

Pastor Augusto sempre orgulhou-se do seu Ministério. Inflamado citava trechos da Bíblia durante o culto em esconjuros pela devassidão moral reinante. Dizia-se estar possesso de um espírito (santo) bom...
- Irmãos, acreditai, esta é uma igreja de milagres e prodígios. Aqui, abençoados... O inimigo sai por bem, ou por mal! Amém? - Ao que rumorejaram pela audiência "Glórias, Deus", "Oh, maravilhas, senhor!" e "irmãs" a falar numas línguas estranhas.
E discorria sobre as curas de que era capaz por intermédio de Deus. Coluna desviada, dor de estômago, bronquite, reumatismo, obesidade etc. Aqui e ali besuntava óleo consagrado nas feridas. Há quem dissesse que além de Pastor, o homem era formado em farmacologia com um pé na medicina. Tudo por dízimos módicos cujas dívidas Deus saldaria em dobro. Falava mesmo em juros e correção.
Havia ainda curas sobrenaturais: homossexualismo, falências comerciais, impotência sexual e mais etc. Seja qual fosse a obra do Capeta, Pastor Augusto era a profilaxia dos males cotidianos. Sua especialidade consistia, sendo também o clímax das reuniões, o pega-pra-capá com as hostes demoníacas.
Outro dia baixou lá um Exu, desses bem tinhoso dizendo-se porta-voz de Lúcifer. O exorcista não se fez de rogado desceu a "mão divina" no idoso, que servia de "cavalo" ao guia:
- Sai, Coisa-ruim, deste corpo que não te pertence! - E tome porrada, aleluia, porém nada... Aflito e temendo por sua reputação perante a congregação, Pastor Augusto cobriu o Exu de pancadas. Sendo este socorrido às pressas ao hospital...
- Saiu em nome de Jesus!... Sim ou não? - Confessou aliviado. O Diabo fora embora, todavia deixara o fiel com duas costelas quebradas e traumatismo craniano.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

HABANERA ================

                            No céu ambíguo da íris destes teus olhos,
                            duma lua incrustada em negros abismos
                            orbita um tanto jóia no céu,
                            diluída um pouco no mar.
                            Transparece sensual mistério
                            quando tuas idéias andam nas nuvens
                            e a palavra geme na tua boca,
                            sopra a brisa do teu hálito
                            cálidas confissões.
                            A aragem revolve teus cabelos
                            labaredas crepitantes
                            atiçadas pelo ar.

                            Admirador da tua natureza intempestiva
                            deixa-me apaziguar
                            os vulcões dos teus seios,
                            o sismo que provoca tuas ancas.
                            Cataclismas em que minha alma desfalece
                            pero, la muerte dulce nos teus braços.

SIFRAN & Co. =============

(Sala da Financiadora. Notas fiscais, cartões clonados por toda parte. Dr. Sifran fuma seu charuto importado.)

SIFRAN: (Ao celular) Escuta... A jóia que te comprei é tão linda... Se custou caro? Ninharia perto do teu valor. (Batem à porta) Estão me chamando. Ligo mais tarde... Entra!
FIRMO: (Pescoço enfiado na abertura da porta) O Sr. tem um minuto pra mim? Queria lhe falar.
SIFRAN: Time is money, Seo Firmo! (Ri do seu lugar comum) Diga lá.
FIRMO: Sem rodeios... Eu gostaria de um aumento.
SIFRAN: Só isso! Nada menos?... Economizastes nas palavras.
FIRMO: Serei pai de novo, Dr. (Ri econômico) Vem mais um herdeiro por aí.
SIFRAN: Vejo que o Sr. prospera no quesito multiplicai-vos.
FIRMO: Oh, chefe... Assim o Sr. me encabula.
SIFRAN: Você sabe que a empresa não está lá essas coisas. (Larga uma baforada no ar) A política monetária do país... Esta crescente inadimplência... Aumento nessas circuntâncias fica difícil. Mas um empréstimo, talvez fosse possível. Sujeito à consulta, é claro...
FIRMO: Veja bem. (Engasga com a fumaça) Empréstimo, patrão?
SIFRAN: Sim! Daria pra comprar o enxoval, o carrinho do bebê, um berço bacana... Desconto em folha por 03 meses.
FIRMO: Três meses!?
SIFRAN: Minha professora de faculdade dizia, "quanto mais tarda, mais caro se paga." (Apanhou uma das muitas calculadoras ligadas) Digamos, 02 mil... Metade dos juros usuais. O que acha?
FIRMO: Que remédio, não é?
SIFRAN: Portanto, meu caro, remediado está! No final do expediente lhe passo o contrato.

(Cabisbaixo, Firmo fechou a porta atrás de si.)


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

OUTRO EXERCÍCIO DE BONDADE =====


Senhor
Há um único Deus
Para tantos milagres,
Muitas igrejas
E poucos santos.
Poupa-nos desta esmola
Que não faremos dela parca fortuna.
Livra-nos da tua onipresença
Estaremos sós,
Entretanto mais humanos.
Extrai deste sentimento de bondade
Meu gesto ímpio,
Dai ao Cristo quem é da Judéia!
Extingue essa necessidade de oferecer
Aquilo que nos falta tanto.

O MILAGRE DO MENINO =====

Tantas brigas por causa de se querer um filho, aí de repente ela embucha e pari uma criança... Que nem parecida com ele é!
Não seria o caso de desgostar do fedelho, embora a estória estivesse mal contada. Se tanto tempo passou nada acontecendo carecia revelar tal mistério. Prova esta que ela sempre pode dar à luz. Quanto ele... Incapaz, talvez.
"Por obra e graça do Espírito Santo!?" - Só de supor naquele desatino as idéias turvavam-lhe a alma. Preferiu não alimentar discórdias bem algum faria ao bebê. Amâncio recebia o recém-nascido como seu...
Na janela do táxi renovava-se a cada instante cenas da vida cotidiana. A troca de olhares mudos entre ambos calava-lhes a voz. Suas dúvidas meditadas no coração. Num a chaga, noutro o encantamento.
Foi decerto milagre de Deus aquela gravidez. Porventura assim houvesse ocorrido é porque o Pai caridoso tinha seus propósitos. Com uma prima sua sucedera igualmente, trazido como no sonho pelo anjo... Imaculada batizava-o em lágrimas, ela que amaldiçoou seu ventre por achá-lo estéril. Uma dessas adivinhonas viu nas cartas que seria homem de prestígio. Não havia importância no lugar simples onde nasceu. Dali sairia um rei...
Estranhamente na visita, Timóteo prometeu endireitar da bebedeira. Disposto a ser padrinho do garoto não queria dar exemplos ruins para o afilhado. Saião mandava recado poupando a mulher das surras constantes. Amém, fariam do cortiço um doce lar pra se conviver.
O carro freou atiçando a revoada de pombos ciscantes no asfalto. Endiabrado, o velho Nicuri que andara errante pelo mundo, veio ao encontro do casal. Ergueu o rebento sobre a cabeça, consagrando-lhe dúzias de palavrões carinhosos. E sendo época de natal chamou-lhe Nataniel.
Samba e forró comiam as chinelas no terreiro em louvor a chegada do menino... Prósperos os homens que se querem bem, cujos pés seguem a vereda da paz!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

P.S... (sic) ============


Sei que desconfias
tanto que tenho pra dizer-te,
mas omitirei.
Do que nos adianta
alegações rancorosas?...

Naquela conversa que se alongou
em especulações sentimentais
seguida dum desértico silêncio
dissemos o inaudito.
Foi um mal epílogo
este episódio derradeiro.

Há muitas coisas
que devíamos falar sinceramente.
Contudo, jamais são ditas
mesmo num post scriptum.
Se está tudo decidido... Deixa pra lá!

EPISÓDIO MEMORÁVEL ======


Da vida remoía incontáveis queixas. Era na morte que se comprazia seu espírito. Velórios familiares verdadeiros acontecimentos festivos. Parente próximo ou distante fazia questão de chorá-lo. Conservava o costume de registrar em albuns fotográficos cada passamento. Bem como mantinha engomado o vestido retinto para a ocasião do luto.
Ocorrido o óbito, exultante dispunha-se em transmitir a trágica notícia. Somente nestas oportunidades fúnebres conseguia reunir toda família. Nas quais comia-se e bebia-se à vontade ouvindo piadas marotas daquele tio sacana. Nessas horas esqueciam do morto, que por uns instantes ficava solitário e o salão invadido pelo riso.
Após o hiato, Ela era a primeira ir prantear à cabeceira do caixão. Assumia um ar solene. Manifestava condoída a beleza mórbida do cadáver. Num diálogo com o desencarnado como se este estivesse atento, exprimindo as qualidades do falecido ou da defunta. Todos fadados a viver no paraíso dada a sua exemplar generosidade... E ai daquele que afirmasse o contrário! Desenterrava estórias reveladoras, passagens pitorescas que então sucedera ao defunto.
Quando por fim trancavam a pobre alma, é que abatia-lhe a tristeza daquele episódio memorável.